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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Questão de opção - Álisson da Hora

Paul Celan, em seu discurso O meridiano, proferido em ocasião do recebimento do Prêmio Georg Büchner, em 1960, nos diz que o poema é solitário e andante, mas também afirma que ele precisa viver o mistério do encontro. Para ele o poema precisa de um Outro e o quer ansiosamente.

O que isso quer dizer? Em o que tais palavras do Celan nos podem ser úteis?

Para mim, e para qualquer pessoa sensata, a busca de um antilirismo empreendida pelos concretistas, diziam eles baseada na poética substantiva do João Cabral de Melo Neto (fácil evocar um consagrado, não?) e levada às últimas consequências por meio de chaves léxicas, signos, acabou por engessar a poesia brasileira, e os poetas novos (talvez à exceção dos marginais, que estavam pouco se lixando para tais regras) ficavam temerosos de irem contra a maré e serem tachados impiedosamente de “bregas”.

Mas, se poesia é subversão, sempre, o público não se preocupou em se esforçar a entender as charadas concretistas. E, à revelia dos que queriam enxergar refinamento estético apenas naquilo prescrito pelos “entendidos”, os poemas continuaram a buscar pelo Outro. Não importasse se com recursos “ultrapassados”, “arrumadinhos”.

Os poemas são feitos e encontram sempre o seu eco.

Obviamente que neste mundo virtual que cria factoides com velocidade horripilante, aparecem cada vez mais “poetas”, sempre dispostos a disseminarem suas poéticas e aquererem se impor, justamente porque SÃO.

Não, não são. Até para utilizarem as ferramentas então consideradas ultrapassadas e exprimir algo mais do que o silêncio é necessário, paradoxalmente, silêncio. E bom senso para não desabar no abismo da verborragia e da pieguice.

Até porque hoje a ânsia em fazer poesia que alie cotidiano, com uma linguagem mista de estranheza e familiaridade, parece ser a tônica. É aí que percebemos quem é capaz de fazer isso sem descambar para um confessionalismo excessivamente cansativo e quem sabe que a poesia sempre é mais além, como imagens de música que rompem a transparência dos copos e dança nas janelas da brevidade. Letícia Coelho nos descreve isso:


Porque de breve
Só o tom…
A semi do quase
Que se atreve.

Breve é suspiro de quem quase falou…
O sorriso é contra alto,
Do tenor, o saxofone
Quase-amaldiçoado. 
Porque de breve
Só Lembranças…
(Bemol) 
Dó-Ré-Mi-Fá-Sol
Partitura remida
Azul é a página porque é sopro, Bendita!
Não bate na mão,
Não canta,
Não se batuca,
Duas pedras de gelo…
É tenor,
MusicaDor.

(É tenor – 3 de março, 2011)

Dizer-se “poeta por opção” pode causar reações inusitadas àqueles que sempre pensam que os poetas – via de regra – são naturais. Por mais que se insinue o dom, a opção sempre demonstrará que a preocupação em se ater ao seu ofício é o diferencial ao tipo de poeta que simplesmente crê que a inspiração aparece e põe pronto à sua mente o poema a ser escrito. A opção exprime o bom senso em acreditar na própria autocrítica, que se remexe nas entranhas do poeta, que respira fundo, na busca de suas palavras para tecer suas trovas:


Faço da trova a ponte dos pés
Açudes de carma futuro
Eu sei…
Difícil saber da giração do ponteiro
Se ler me causa dores nos músculos
A causa, divulgo:
É preciso abaixar para entender os rodapés.
*
*
E cansa mais que tijolo no lombo…
Poeta capacho se faz de saudoso
Dói o fígado a permanência no limbo
E se para/separa/amarra
E volta até a mesma página…
No máximo perturba o sono
E quem precisa dormir?
Se quem faz, está desperto do enjoo.
*
*
E trago mais um cigarro
Ajuda a respirar fundo,
Antagonismo perfeito… É justo
… Quando o fardo das entrelinhas
Invade chão e caminha
Rumo ao azul pesado
Das noites com pouca tinta.

(Muscular, 10 de fevereiro, 2011)

A opção em ser poeta nos mostra que a busca interminável pela Poesia passa pela luta entre o dizer e o calar. A consciência disso não existe em quem se acha “poeta natural”: o que sai em extrema profusão, sem uma disciplina que luta contra o paradoxo da subversão, geralmente desaparece diante de sua própria loquacidade. A poesia de Letícia Coelho, tão simples quanto trabalhada (e a simplicidade por vezes pede mais engenho), acorda para o papel ao relento, o silêncio que resta ao final de cada reflexão que é o escrever um poema:


Se acaba a terra,
Cai mundo, some chão, sumidouro…
Da palma do pé,
Coração de papel ao relento
Gravidade zerada…
De notas descoradas.

Se termina o ar,
Morre tudo… Tubos, doutos, conexão…
É vida partida, rima perdida
…Plana grão…
Estrelas despencam do céu
Não adianta, o perdão.

Se finda água,
Sedento mundo, anda…
Lágrimas esgotadas
Em passarelas de nariz
…Na lama, sorvendo, anda engasgada…
Sangue vomitado de chafariz.

Se vida da terra
Em compasso com ar,
Da água desperta
Fogo de mão…
Um só lamento,
Psiu… Silêncio…
Grito em ebulição.

(Se vida, 17 de janeiro, 2011)

Tal grito em ebulição seja aquele que nós emitimos contra os travesseiros ao final de algum pesadelo ou nos momentos em que nos faltam as palavras e tudo parece estar em descompasso. Somente um poeta que quer ser poeta, não o que se acha tal coisa, sabe o que é isso. Como diz o Rilke, sempre necessário, nas suasCartas a um jovem poeta, é o que, por mais que se crie a opção de deixar de ser, não se deixará de sê-lo. Diferentemente dos que encaram isso uma fase ou um arroubo, os que são poetas estão sempre em busca do Outro. O poeta, além de ser antena da raça, como pensava o Pound, é uma espécie de agregador, sempre preocupado em procurar seus iguais. E sempre preocupado em devassar as palavras, e mostrar aos incautos que a poesia não é um animal sem vísceras. Como também acharia tal coisa o Mário Quintana, também poeta por opção, a quem Letícia dedica o poema Poetasia:


E se não beija a lua, diz que mia…
Verbaliza o sol,
Poeta de tom pastel…
Que seria do teu dó, sem a ousadia?

{Porque poeta não nasce de parto
Nasce da rima na língua
Não morre de enfarto
Pois carrega o coração na tinta}

E se poeta a caneta não quisesse que fosse
Desintegraria de desgosto em cada sílaba
Desferia golpes em frases sabor agridoce
Arrancaria o osso da coluna da linha.

{ A gente reza para o santo gemido do silêncio
Que as vidas imperfeitas se mostrem
Para que brote o acaso no momento
E o desenho do perfeito, aflore.}

E se a lua do olho espirrar…
O eclipse do choro vinga
Cílios se dobram para amanteigar
O poeta vadio que abraça a moringa.

{ Porque das luas nos interessa o queijo
Das nuvens, o sonho condensado
Da boca… A poesia do beijo
E dos outros, o não informado passado}

E se não fosse a árvore, céu não existiria
O mar seria lodo de preces e pecados
E a poesia…
Ah, poesia… Seria lida por endoscopia.

(Poetasia, 22 de outubro, 2011)

Letícia (Losekann) Coelho é formada em pedagogia, mas é “poeta por opção”. Mãe do Lucas e esposa do David Nóbrega, atualmente se dedica integralmente a Editora Novitas em que é editora em parceria com seu marido. Participou do evento “Mesa para oito” na livraria da Vila em São Paulo (debate de poesias) com outros autores em Março de 2008. Participou, também, da coletânea da editora Komedi no ano de 2008 e lançou o livro: “Ensaios Amadores… Ou não”. Em 2009 participou da I Coletânea Scriptus – A livre escrita que foi o primeiro livro publicado de sua editora (Novitas). Organizou a exposição: “Porto Alegre: imagem e poesia” no CEEE Erico Veríssimo, onde foram convidados vários poetas a escreverem sobre a cidade, utilizando fotografias de David Nóbrega. Declamou Sophia de Mello Breyner Andresen no Instituto Cultural Português em Porto Alegre. Em 2010 participou do e-book “Apenas o necessário” e esse ano publicará o livro de poesias Numérica. Além do seu blog pessoal, Letícia colabora nos blogs Scriptus Est e Bordel Bordado, e está no twitter.

sábado, 16 de junho de 2012

Carlos Pena Filho - Soneto das Metamorfoses


Carolina, a cansada, fez-se espera 
e nunca se entregou ao mar antigo. 
Não por temor ao mar, mas ao perigo 
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era, 
despiu, humildemente, as vestes pretas 
e incendiou navios e corvetas 
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume 
escandalosamente penetrado 
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife: 
abandonou seu corpo incendiado 
e adormeceu nas brumas do Recife.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Liberdade - Sinto Assim Mesmo!


Liberdade— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade onipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 
— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome. 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

domingo, 6 de maio de 2012

Poema - Eugénio de Andrade


Passamos pelas coisas sem as ver, 
gastos, como animais envelhecidos: 
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos, 
como frutos de sombra sem sabor, 
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente - José Luís Peixoto - Portugal - 1974/



Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim. 

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras. 

José Luís Peixoto, in 'Uma Casa na Escuridão'

Que Humanidade é Esta? - José Saramago - Portugal - 1922/2010


Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegámos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espectáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.


José Saramago, in 'Canarias' (1994)'

A Verdadeira Divisão Humana - Victor Hugo - França -1802/1885


Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos reflectidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes. 
A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos. 
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila. 
De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do génio. 
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos. 


Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Metempsicose - Antero de Quental



Ardentes filhas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes, em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, onde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas d'amor um corpo exangue...

Mordei pois esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! Leoas! sim, bebei meu sangue!

Antero de Quental
(1842-1891)

terça-feira, 13 de março de 2012

Amor e tempo > Padre Antônio Vieira -



Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera !
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos. 

Assim penso, pois na vida tudo passa, só não o amor à Deus!

sábado, 10 de março de 2012

O perfume das maçãs > Eli Boscatto



Não adianta tentar reter o tempo. Ele escorre entre os dedos das mãos e deságua lá longe na imensidão da memória, deixando pelo caminho grandes e pequenos fragmentos de imagens, sabores e...os aromas! aqueles cheiros que nos fazem lembrar de momentos, lugares e pessoas.

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Ah! os aromas da infância! Se por acaso sinto algum, sou imediatamente remetida no tempo. Cheiro de café torrado, de bolo no forno, de pudim de pão, de mato recém cortado, de terra molhada; cheiro de Natal. Chego a pensar que nossa memória está localizada no nariz.
No jardim havia gerânios, antúrios, margaridas, todo tipo de folhagens. Mas me lembro muito de um pé de dama da noite porque sua flor só se abria ao anoitecer e deixava o ar impregnado com seu perfume mágico, daqueles que você fica aspirando para sentí-lo melhor.  
E o perfume das maçãs? Lembro que achava as maçãs muito bonitas, não eram comuns como a banana e a laranja, vinham embrulhadas uma a uma num papel de seda azul. Além das maçãs, tinham as uvas. Mas as maçãs eram especiais, vermelhas, saborosas e cheirosas. Por essa época também comecei a ouvia dizer que a maçã era a fruta símbolo do pecado original. Mas se o pecado era uma coisa ruim, como a maçã podia representar o pecado? Ficava imaginando como seria um "pé de maçã" cheinho delas.

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Não dá para descrever o prazer que era cheirar uma maçã antes de mordê-la. Não sei se perdi o sentido do olfato ou se ele mudou. Agora o Natal não tem mais aquele cheiro especial. Mas como pode a maçã ter perdido seu aroma? Teria sido imaginação? Descoberta de criança?
Do aroma das maçãs, só restou a lembrança. O prazer de comer uma maçã já não é o mesmo. Agora o cheiro mais comum que se impregnou em minhas narinas é o de uma estranha mistura de fumaça e concreto...e aquele aroma gélido do ar condicionado.
Teria eu perdido a sensibilidade do meu olfato?

sábado, 3 de março de 2012

Vida ilusória - (Henry David Thoreau, in 'Walden')

Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as histórias das Mil e Uma Noites. 

Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e sábios, percebemos que só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas aparências, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. 


(Henry David Thoreau, in 'Walden'

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quando chega uma carta tua > Sigmund Freud



Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. Ainda bem que ela não tem nada a ver com doenças – e espero que continue – excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um médico para amante. Oh Marty, é muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armazém de certas experiências monótonas. Mas ninguém se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a não ser que tenha sido uma máquina ou um armazém por onze horas. E aqui chegámos, onde começamos. 

Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro 1883 (excerto)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Roda da Vida - Janne Alves de Souza in Obvious



As horas voam, os dias passam, os anos se vão. O tempo, senhor da vida, segue, narcísicamente, sua marcha inefável em favor de si próprio. Segue em círculos na roda da vida, em que estamos todos nós que existimos, onde toda a existência está a dançar a dança do tempo. Tudo que existiu sempre existirá. Na roda da vida não há morte capaz de destruir a existência. A morte é apenas um ser que tira-nos do corpo a alma. Transforma seres animados em seres inanimados, sem alma. Na roda da vida nada morre, apenas move-se do seu lugar, transforma-se. O que antes era, já foi, não é mais. Mas não se pode dizer que não voltará a ser. Nunca se sabe. Quem saberá quando termina a dança do tempo na roda da vida? Terá fim? Quem poderá dar fim ao movimento transformador da dança do tempo na roda da vida?

Na roda da vida tudo passa, inclusive nada. Passam os dias e as horas, a lua e as estrelas, passa o mar, passa o céu e a terra, passa você e eu e todo mundo. Todas as coisas passam com o tempo, em par. Algumas passam com o vento, algumas passam com desalento. Algumas com sofrimento. Outras não passam nem com intento, nem co'a angústia, nem com juramento. Mas todas passam com o tempo. Será este nosso alento, que todas as coisas passem com o tempo? Até mesmo a saudade, a dor e o sofrimento? Fiz-me, a tempo, um juramento: jamais voltaria a dançar na roda da vida com o tempo. Tudo que existe em mim não passaria, então, com o tempo. O tempo passa fora de mim, mas dentro de mim não passa o tempo. Dentro de mim não passa o vento, não passa a angústia, a dor e o descontentamento. Não passa nem mesmo a vida, a saudade, tu, e o sofrimento. Dentro de mim não passa o tempo. Estou suspensa da roda da vida, não passo, eu, com o tempo.

Saí da roda da vida, deixei de dançar a dança do tempo para que você não passe. Tive medo de que você passasse, de que passasse tudo que encontrei na dança do tempo na roda da vida. Parei de dançar, deixei a roda da vida para não passar tudo que vivi, tudo que senti. Agora, não passa a dor com o tempo, não passa a saudade, não passa a angústia, não passa a aflição. Não passa você, não passa ninguém, não passa nada. O vazio não passa. A vida não passa. Nem a morte passa, não passa o tempo... as ruas não passam... nem o sol, o céu, o mar, o vento. O amor não passa, não passa a amizade. Nada passa. Anseio voltar à roda da vida e dançar a dança do tempo. Mas tenho medo de que tudo passe com o tempo. Passará o medo com o tempo também se eu voltar à roda da vida e dançar a dança do tempo? Passará a vida, a morte, o medo? Tudo passará? Certamente, eu passarei.



ALeia mais: http://lounge.obviousmag.org/megalomaniaca/2012/02/a-roda-da-vida.html#ixzz1luMi4Laz

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O VALOR DOS CLÁSSICOS - Agostinho da Silva

Dando à palavra o seu mais amplo domínio não podemos encerrar o clássico na estreiteza das escolas e nos limites do tempo; antes o haveremos de tomar como uma raça de espírito, capaz de fazer surgir os seus representantes nos lugares mais diversos e nas mais distantes épocas; e, se quiséssemos seguir este rumo, ainda haveria a discutir se na realidade se trata de qualidades inatas, não modificáveis por uma acertada educação, ou de um grau determinado de cultura, de um valor que seria possível medir na escala ascendente do imperfeito ao perfeito; isto é, teríamos que lhe encontrar idêntica solução à que proporíamos para os problemas que levanta a existência de culturas inferiores; a luta vai desencadeada entre os partidários da circunvolução defeituosa ou da completa estrutura e os que se inclinam às virtudes da escola. Mas o que mais nos interessa por agora é acentuar que não é inútil restringirmos o conceito de clássico, ligá-lo com laço definido a um tempo pretérito; os autores clássicos seriam assim como as ilhas que emergem do grande mar do tempo; desfizeram-se as rochas mais friáveis, caíram nos fundos os milhões de vidas que sulcaram as águas, perderam-se as terras que os vulcões com ímpetos de fogo e os estrondos que abalavam o mundo tinham feito surgir à superfície; ficou somente o que soube resistir aos ventos e às ondas e lhes ofereceu alicerce seguro e rocha viva; o que foi lento e calado no nascer e tranquilo na defesa dos embates; o que pôde e soube também ir revestindo a construção primitiva com as sementes que os ares lhe traziam; o que teve a capacidade bastante para admitir as novas invenções e para abrigar todos os sonhos e projectos de uma vida contínua; numa breve palavra, o que se mostrou duradouro e fecundamente acolhedor. 

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Il divo & Celine Dion - I believe in you


O Instante Luminoso (Péter Zirkuli)
  
Viveríamos apenas
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.