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sábado, 27 de outubro de 2012

MARIE ANTOINETTE: A MADONNA DO SÉCULO XVIII

© Retrato de Marie Antoinette aos 16 anos, (Wikicommons, de Joseph Kreutzinger).


Maria Antonieta Josefa Joana de Habsburgo-Lorena (em francês: Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine), arquiduquesa da Áustria, foi a rainha consorte de França de 1774 até à Revolução Francesa, em 1789. Era a filha mais nova de Maria Teresa de Habsburgo e de Francisco Estêvão de Lorena, imperatriz e imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Casou-se em 1770, aos catorze anos de idade, com o delfim francês Luís Augusto de Bourbon, que, em 1774, se tornou o rei de França, com o nome de Luís XVI.
Na corte hostil de Versalles, Marie decide, portanto, criar o seu universo recorrendo à moda. A rainha mudava constantemente a sua aparência, variando entre penteados extravagantes a vestimentas bucólicas de campo que desfilava num círculo mais privado, no seu Petit Trianon, passando ainda pelas andróginas silhuetas masculinas de montar. Reinventando-se constantemente, Antoinette conseguia manter o público e o povo curiosos sobre a sua próxima faceta. Tal como Madonna, a rainha acendeu os debates nacionais sobre a sexualidade feminina, utilizando-se da moda quando queria dar um recado à corte. Terá sido um acirro aos ânimos já de si revolucionários?
Diante de uma corte rígida, cheia de costumes e tradições, Marie chocou e fez sucessoras com o seu estilo sui generis e fora dos padrões da época. Diariamente, a rainha recebia a visita da modista Rose Bertin, conhecida como a “ministra da Moda”. Desses encontros saíram roupas e acessórios que fariam os carnavalescos do Brasil roerem-se de inveja, e que inspiram os estilistas até os dias de hoje. Por exemplo, John Galliano criou, em 2000, uma coleção inteira de alta-costura para a Christian Dior inspirada em Maria Antonieta e, mais recentemente, a coleção Cruise 2012/2013 de Karl Lagerfeld reabilita a opulência e frivolidade do século XVIII misturada com uma boa dose de glam rock. Segundo algumas comentadoras de moda, a coleção traz-nos uma "Marie Antoinette pronta para uma noitada". Outra importante personagem na vida desta monarca foi o seu cabeleireiro Leonard que, junto com Maria Antonieta, criaram o famoso penteado pouf ( um penteado altíssimo, segurado por arames e enfeitado), muito copiado pelas mulheres da aristocracia.
Astutamente, por meio de roupas novas, sapatos e penteados, a rainha impôs-se e colocou-se acima de qualquer mulher francesa, o que garantiu também que o seu marido não tivesse necessidade de ter mais nenhuma mulher, como era costume na época. Na verdade, o normal era as soberanas francesas projectarem uma imagem dócil e discreta, longe de todos os holofotes, cabendo antes às amantes dos monarcas demonstrarem o seu poder através de uma moda exibicionista e espampanante.
Cleópatra e Isabel I de Inglaterra também foram governantes que criaram uma moda própria, espelho do esplendor dos seus reinados, aproveitando-se do poder que a aparência tem para sugerir e influenciar opiniões, assim como para projetar a imagem pretendida. Cleópatra usava o poder da sua beleza para influenciar os negócios do estado, Isabel criou um vestuário fantástico e poderoso, tradutor do período em que reinou. Marie não foi excepção: “ela usava a moda como um instrumento político, como forma de aumentar ou sustentar a sua autoridade em momentos em que parecia estar sob risco, como nos sete anos que se passaram antes que ela tivesse um filho”, diz Caroline Weber, especialista em cultura francesa do século XVIII e autora de "Queen of Fashion".
E foi exatamente esta utilização da moda, como uma espécie de afirmação, que fez com que a rainha tivesse várias "fases". Numa delas, por volta de 1780, incorporou o conceito de Jean Jacques Rousseau de “retorno à natureza”. A fim de escapar dos rigores da vida na corte, a jovem rainha começou a vestir-se com um simples vestido de algodão e um grande chapéu de palha, chocando tudo e todos com a ideia de uma monarca pastora. Na verdade, o gosto simples de Antoinette atraiu ainda mais crítica que a sua antiga opulência. Com o cabelo desempoado e vestidos de linho, foi acusada não só de tentar colocar o vendedor francês de seda para fora do mercado em benefício dos seus irmãos tecelões belgas e alsacianos, como também foi acusada de reduzir o prestígio da monarquia por ser demasiado casual. Independentemente do que fizesse, havia (e há!) sempre aqueles que iriam criticar. No caso de Marie, o facto de ser austríaca fez dela um objeto de suspeição a partir do momento em que pisou território francês, mesmo entre a família Real. Para aqueles que procuravam o poder político pela supressão do regime real, a rainha de Luís XVI, com sua beleza e jovem imprudência, foi o alvo perfeito.
Em 1783 a economia cambaleava e Maria Antonieta ganhou o apelido de "Madame Déficit". Os seus hábitos extravagantes tornaram-se alvo da revolta popular contra tudo o que estava errado no Antigo Regimes. Atribui-se a Maria Antonieta uma famosa frase: “Se não têm pão, que comam brioches”, que teria sido proferida a uma das suas camareiras certa vez que um grupo de pobres foi ao palácio pedir pão para comer. No entanto, é consenso entre os historiadores que a rainha nunca disse a frase, que esta foi sendo usada contra ela durante a Revolução Francesa. Os registos históricos mostram, claramente, que, na época da sua coroação, Maria Antonieta angustiava-se com a situação dos pobres. Na correspondência com a mãe, Marie chega a comentar o alto preço do pão. Escreveu mesmo que: “Tendo visto as pessoas nos tratarem tão bem, apesar de suas desgraças, estamos ainda mais obrigados a trabalhar pela felicidade deles”.








domingo, 20 de maio de 2012

O Interior da Alma - Victor Hugo - Os Miseráveis

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espetáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma. 
Fazer o poema da consciência humana, mas que não fosse senão a respeito de um só homem, e ainda nos homens o mais ínfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: é o pandemônio dos sofismas, é o campo de batalha das paixões. Penetrai, a certas horas, através da face lívida de um ser humano, e olhai por trás dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. Há ali, sob a superfície límpida do silêncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de dragões e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais visionárias como em Dante. Sombria coisa esse infinito que todo o homem em si abarca, e pelo qual ele regula desesperado as vontades do seu cérebro e as ações da sua vida! 

Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'

Philippe Jaroussky, Pascal Bertin, Purcell, Come, Ye sons of art "Sound the trumpet" version "bossa


quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Verdadeira Divisão Humana - Victor Hugo - França -1802/1885


Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos reflectidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes. 
A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos. 
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila. 
De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do génio. 
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos. 


Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Edith Piaf - L'Effet Que Tu Me Fais



Y a des gens qui savent exprimer
La grandeur de leurs sentiments.
Moi je n'ai aucune facilité.
C'est une question d' tempérament.

Je n' peux pas dire l'effet qu' tu m' fais,
Mais vrai : tu m' fais un drôle d'effet.
Ça commence là, ça passe par là,
Ça continue, et ça s'en va...
Je m'demande où, ça je n' sais pas.
Mais ça revient, et ça remet ça.
Il n'y a qu'un remède pour calmer ça,
C'est quand tu me prends dans tes bras.

T'as dans ta main ma ligne de chance
Et dans tes yeux, mes jours heureux.
On peut bien dire que l'existence
A des moments si merveilleux
Que je m' demande si l' paradis,
Quoi qu'on en dise, est mieux qu'ici.
Si j' pouvais dire l'effet qu' tu m' fais,
Mais vrai : tu m' fais un drôle d'effet.

Si tu veux savoir mon impression,
Notre amour c'est comme un peu d' blanc.
C'est beau l' blanc, mais c'est salissant,
Aussi j'y fais très attention.

Je n' peux pas dire l'effet qu' tu m' fais,
Mais vrai : tu m' fais un drôle d'effet.
Ça commence là, ça passe par là,
Ça continue, et ça s'en va...
Je m' demande où, ça je n' sais pas
Mais ça revient, et ça remet ça.
Il n'y a qu'un remède pour calmer ça,
C'est quand tu me prends dans tes bras.

Crois-tu vraiment qu'on a d' la chance
De nous aimer et d'être heureux ?
Y a tant de gens dans l'existence
Qui voudraient bien être amoureux.
T'as des façons de m' regarder.
Vraiment, t'as pas besoin d' parler
Et si j' te fais l'effet qu' tu m' fais,
Ben vrai, on s' fait un drôle d'effet...