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sábado, 16 de junho de 2012

Carlos Pena Filho - Soneto das Metamorfoses


Carolina, a cansada, fez-se espera 
e nunca se entregou ao mar antigo. 
Não por temor ao mar, mas ao perigo 
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era, 
despiu, humildemente, as vestes pretas 
e incendiou navios e corvetas 
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume 
escandalosamente penetrado 
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife: 
abandonou seu corpo incendiado 
e adormeceu nas brumas do Recife.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Soneto do desmantelo azul > Carlos Pena Filho

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.




COUTINHO, Ediberto. Os melhores poemas de Carlos Pena Filho. 4a ed. São Paulo: Ed. Global, 2000.