«Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras.» José Luis Peixoto
Gosto pouco de paragens frequentes – quebram o ritmo e, até, a paisagem. Mas, amanhã, vou sair na próxima estação. Não sei o que me espera e foi isso que me fez parar. A viagem é minha e só minha, mas gosto da tua companhia. Vai ficando; eu não me importo. Quando partires, mando-te postais.
Os caminhos aceitariam os nossos passos,
e as florestas a nossa respiração.
Por vezes tirarias o vestido,
e caminharíamos nus
por entre as vozes pressentidas
dos carros e de outros nómadas.
Porque estou farto
de todo este engano,
desta reunião para fins de caridade,
que pouco a pouco e sem descanso
me recupera,
me torna apto
para chegar ao dia de amanhã,
o tempo enfim dos poros em putrefacção,
a minha morte.
É um adiamento
sem igual -
cada vez mais ímpar,
que só o homem podia inventar
na sua perturbação distraída,
no seu esforço.
Por isso a sociedade
às vezes ainda me irrita,
e eu a mim próprio mas cada vez menos.
Pois o que procuro é:
tão só um lugar, onde fôssemos
como animais lentos,
como objectos reencontrados.
Onde fosse comparável ao teu
o mapa das linhas da minha mão,
o tom desmaiado das minhas gengivas,
a trama inútil dos meus gestos.