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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Chuva - Francis Ponge


A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.
Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.
O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.
Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.

domingo, 3 de junho de 2012

Deixa-me espreitar-te - Para Isabela

Isabelas

Deixa-me pousar os olhos. Só por um bocado, só para te ficar a ver. Só para absorver os teus traços mais uma vez, como se eu não os soubesse de cor. Como se fossem meus, embora de uma certa forma obsessivo os sinta pertencerem-me. Deixa-me ficar aqui sem dizer nada, sem me denunciar com palavras. Nunca saberia sequer dizer as mais corretas, nunca sei porque se deixam corroer pelas minhas incongruências. É, deixa-me ficar aqui a espreitar-te, pelo cantinho, a fingir que nem sequer estou a prestar atenção. A fingir que não me importo, que não sei, que não quero, que não preciso. Deixa-me estar. Até me sentir bem outra vez.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

No outono - Georg Trakl



Junto à cerca, os girassóis e seu brilho,
Doentes sentados ao sol, sem alento.
No campo, as mulheres cantam no trabalho,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.

Os pássaros contam lendas de encantar,
Ouvem-se ao longe os sinos do convento.
Há um violino no pátio a gemer.
E já o vinho escuro vão recolhendo.

Todos parecem felizes, libertos,
E já o vinho escuro vão recolhendo.
Os jazigos dos mortos estão abertos,
Pintados pelo sol que vai entrando.


(tradução: João Barrento)

Isto - Caesar Abraham Vallejo


Sucedeu
isto entre duas pálpebras; tremi
no ventre, colérico, alcalino,
parado junto ao equinócio lúbrico
ao pé do frio incêndio que me devasta.

O resvalo alcalino, digo,
mais perto do alho, sobre o sentido da calda,
no interior da ferrugem,
no ir da água e no rolar da onda.

O resvalo alcalino, também,
era enorme na montagem colossal
do céu.

Que dardos e arpões lançarei, se morrer
no ventre hei de dar em folhas de plátano sagrado
meus cinco ossos subalternos,
e no olhar o próprio olhar!

(Dizem que nos suspiros criam-se
acordeões ósseos, táteis;
dizem que quando morrem os que se acabam assim,
falecem fora do relógio, a mão
a segurar um sapato solitário)

Compreendendo tudo, coronel,
e tudo no sentido lastimável desta voz
castigo-me: extraio tristemente
durante a noite, as minhas próprias unhas
depois não possuo nada e falo sozinho,
inspeciono os semestres
e para encher as minhas vértebras, toco-me.

OUVE a massa, o teu cometa, escutai-os, não venhas carpir
a memória, gravíssimo cetáceo;
ouve a túnica com que estás sonâmbulo,
ouve a tua nudez, detentora do sonho.

Narra-te segurando
a cauda de fogo e os chifres
em que acaba a crina do rasto atroz;
rompe-te em círculos,
forma-te, mas em colunas curvas
descreve-te atmosférico, ser vaporoso,
ao passo reforçado do esqueleto.

A morte? Impugna todo o vestido!
A vida? Obsta parte da tua morte!
Fera venturosa, pensa,
deus desgraçado, despoja-te da fronteira.
Falaremos em breve.

(Trad. Jorge Henrique Bastos)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Como posso viver longe de ti > Tassos Leivaditis

by Hélio Cambuí
Como posso viver longe de ti...
Como posso acender um candeeiro senão para te ver?
Como posso fitar uma parede por onde não perpassa a tua sombra?
... Como hei-de abrir uma porta se não for para ir ter contigo?
Como hei-de atravessar uma soleira se não for para te encontrar?
Não, não podia viver longe de ti...
Dá-me a tua boca por um momento...

(Tasos Leivaditis, Tradução de Manuel Resende)

O MAIS BELO POEMA GRATIDÃO QUE EU JA OUVI - OUÇA E REFLITA!!


quinta-feira, 8 de março de 2012

Rosa de Hiroshima > Feliz Dia Internacional das Mulheres!!


Mulher

Você que busca no dia a dia sua
independência, sua liberdade, sua
identidade própria;

Você que luta profissional e
emocionalmente, para ser
valorizada e compreendida;

Você que a cada momento tenta ser a
companheira, a amiga, a "rainha do lar";

Você que batalha incansavelmente por seus
próprios direitos e também por um mundo
mais justo e por uma sociedade sem
violências;

Você que resiste aos sarcasmos daqueles
que a chamam de, pejorativamente, de
feminista liberal e que já ocupa um
espaço na fábrica, na escola, na
empresa e na política;

Você, eu, nós que temos a capacidade de
gerar outro ser, temos também o dever de
gerar alternativas para que a nossa Ação
criadora, realmente ajude outras
mulheres a conquistarem
a liberdade de Ser.

Autora: Ilza da Luz

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Delírios Mudos > Alex Rodrigues


Sentado do lado seu
Ouvindo promessas e dívidas
Me encho de dúvidas reprimidas
Em um corpo sedento por te ter

Comento poemas e canções perdidas
Odisséias de heróis esquecidos
Cito nomes que nunca foram ditos
Faço isso, entre sussurros e gemidos.

Quando penso que não posso mais
(Afinal não deveria)
Tuas mãos me acariciam
Teus lábios me propiciam
Me sentir entre os imortais

Me esqueço de quem eu sou
De quem era
Ou o que seria
Ofegante em ti respiro
E transpiro-ti em um mar de beijos

Ainda penso enquanto escrevo
Em quão belo será o dia
Em que na mais bela euforia
Clamaremos para o tempo
Que ele esqueça-se de nós

Sentindo tua pele sobre a minha
Olhos cerrados, de quem dormia
Navegando num mar de suor
Fazendo em teus cabelos um nó
Pra um só amor atar

E de manhã ainda acordar
Embevecido de tanto prazer
Sentindo teus braços me envolver
Convidando-me com um só olhar
Pra outra vez diante de Eros
Sentindo a música mais bela
Profanado por teus lábios
E no corpo não mais sozinho
preenchê-lo de carinho e novamente...
Te amar.


Alex Rodrigues

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Abrir de Olhos > Laura Riding



Pensamento dando para pensamento 
Faz de alguém um olho. 
Um é a mente cega-de-si, 
O outro é pensamento ido 
Para ser visto de longe e não sabido. 
Assim se faz um universo brevemente.

A suposição imensa nada em círculos, 
E cabeças ficam mais sábias 
Enquanto notam a grandeza, 
E a dimensão imbecil 
Espaça a Natureza,

E ouvidos reportam primeiro os ecos, 
Depois os sons, distinguem palavras 
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas 
Como por encanto. 
E assim falsos horizontes se ufanam em ser 
Distância na cabeça 
Que a cabeça concebe lá fora.

O maravilhar-se, que escapa dos olhos, 
Regressa a cada lição. 
O tudo, antes segredo, 
Agora é o conhecível, 
A vista da carne, a grandeza da mente.

Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mundamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Angústia - Rodrigo Della Santina in Obvious



Eu não suporto ver uma impossibilidade
Olhar-me nos olhos austera e fixamente
Como se o meu desejo fosse incoerente
E me servisse muito mais a realidade

Cotidiana de que se serve toda a gente.
Ora, o meu talento é a expressão da honestidade
Em que Deus se meteu ao criar a humanidade.
Não pode ser portanto aquele incoerente.

Mas descubro que o é. E o que acontece em mim,
Dentro de mim, comigo, é uma explosão total
E esquizofrênica da realidade em si:

O vergastar do vento muda a direção
Do meu desejo... E o que ora me resta, afinal,
É só para eu poder não me esquecer de mim.

Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/o_limiar_da_lucidez/2012/02/angustia.html#ixzz1lu9Xdhsy

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um céu e nada mais > Ana Luisa Amaral


Um céu e nada mais — que só um temos, 
como neste sistema: só um sol. 
Mas luzes a fingir, dependuradas 
em abóbada azul — como de tecto. 
E o seu número tal, que deslumbrados 
neram os teus olhos, se tas mostrasse, 
amor, tão de ribalta azul, como de 
circo, e dança então comigo no 
trapézio, poema em alto risco, 
e um levíssimo toque de mistério. 
Pega nas lantejoulas a fingir 
de sóis mal descobertos e lança 
agora a âncora maior sobre o meu 
coração. Que não te assuste o som 
desse trovão que ainda agora ouviste, 
era de deus a sua voz, ou mito, 
era de um anjo por demais caído. 
Mas, de verdade: natural fenómeno 
a invadir-te as veias e o cérebro, 
tão frágil como álcool, tão de 
potente e liso como álcool 
implodindo do céu e das estrelas, 
imensas a fingir e penduradas 
sobre abóbada azul. Se te mostrasse, 
amor, a cor do pesadelo que por 
aqui passou agora mesmo, um céu 
e nada mais — que nada temos, 
que não seja esta angústia de 
mortais (e a maldição da rima, 
já agora, a invadir poema em alto 
risco), e a dança no trapézio 
proibido, sem rede, deus, ou lei, 
nem música de dança, nem sequer 
inocência de criança, amor, 
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral, in “Às Vezes o Paraíso”

As frágeis hastes > Eugénio de Andrade

Não voltarei à fonte dos teus flancos 
ao fogo espesso do verão
a escorrer infatigável
dos espelhos, não voltarei.

Não voltarei ao leito breve
onde quebrámos uma a uma
todas as frágeis
hastes do amor.

Eis o outono: cresce a prumo.
Anoitecidas águas
em febre em fúria em fogo
arrastam-me para o fundo.


Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sofrer para nada serve > Cesare Pavese -


Porque esquecemos os mortos? Porque já não têm préstimo. 
Esquecemos, repudiamos uma pessoa triste ou doente, em virtude da sua inutilidade psíquica ou física. 
Ninguém se abandonará a ti, se não vir nisso algum proveito. 
E tu? Creio ter-me abandonado uma vez, desinteressadamente. Não devo, portanto, chorar por ter perdido o objecto daquele abandono. Já não seria desinteressado, nesse caso. 
No entanto, vendo quanto se sofre, o sacrifício é antinatural. Ou superior às minhas forças. E chorar é ceder ao mundo, é reconhecer que se procurava algum proveito. 
Há alguém que renuncie, podendo ter? A caridade não é outra coisa que o ideal da impotência. 
Basta de virtuosa indignação! Se tivesse tido dentes e habilidade, teria apanhado a presa.

Mas isto não impede que a cruz do desiludido, do falido, do sacrificado - eu - seja atroz de suportar. Afinal de contas, o mais famoso dos crucificados era Deus: nem desiludido, nem falido, nem vencido. No entanto, apesar de todo o seu poder, gritou "Eli!", mas depois dominou-se e triunfou, e já o sabia de antemão. A esse preço, quem não queria ser crucificado? 
Há tantos que morreram desesperados. E esses sofreram mais do que Cristo. 
Mas a grande, a tremenda verdade é esta: sofrer, para nada serve. 

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Espírito Desfaz a Ordem das Coisas > Robert de Musil


O espírito aprendeu que a beleza nos faz bons, maus, estúpidos ou sedutores. Disseca uma ovelha e um penitente e encontra em ambos humildade e paciência. Analisa uma substância e descobre que, tomada em grandes quantidades, pode ser um veneno, e em pequenas doses, um excitante. Sabe que a mucosa dos lábios tem afinidades com a do intestino, mas também sabe que a humildade desses lábios tem afinidades com a humildade de tudo o que é sagrado. O espírito desfaz a ordem das coisas, dissolve-as e volta a recompô-las de forma diferente. O bem e o mal, o que está em cima e o que está em baixo não são para ele noções de um relativismo céptico, mas termos de uma função, valores que dependem do contexto em que se encontram. Os séculos ensinaram-lhe que os vícios se podem transformar em virtudes e as virtudes em vícios, e conclui que, no essencial, só por inépcia se não consegue fazer de um criminoso um homem útil no tempo de uma vida. Não reconhece nada como lícito ou ilícito, porque tudo pode ter uma qualidade graças à qual um dia participará de um novo e grande sistema. Odeia secretamente como a morte tudo aquilo que se apresenta como se fosse definitivo, os grandes ideais, as grandes leis e a sua pequena marca fossilizada, o carácter acomodado. Nada para ele é fixo, nenhum eu, nenhuma ordem; como os nossos conhecimentos podem mudar todos os dias, não acredita em vínculos, e tudo tem o valor que tem até ao próximo acto da criação, como um rosto para o qual falamos enquanto ele se vai transformando com as palavras. O espírito é, assim, o grande artista da contingência, mas ele próprio não se deixa apanhar, e quase somos levados a crer que a ruína é a única coisa que resta da sua acção. Todo o progresso é um ganho no particular e um desmembramento no todo; é um aumento de poder que desemboca num progressivo aumento de impotência, e contra isto não há nada a fazer.

in "O Homem sem qualidade".

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Riso - Poema - Afonso Duarte.

Tive o jeito de rir, quando menino, 
Até beber as lágrimas choradas: 
Com carantonhas, gestos, desatino, 
Passou a nuvem e os pequenos nadas. 




A rir de escuridões, de encruzilhadas, 
Tornei-me afeito logo em pequenino; 
Porque ri é que trago as mãos geladas, 
E choro porque ri do meu destino. 

Vivi de mais num mundo idealizado 
Comigo só: E só de mim descreio 
Entornava-me riso a luz em cheio 

Quando o meu mundo foi principiado; 
Rio agora que não sei donde me veio 
Sempre o mal que me trouxe o bem sonhado. 

Afonso Duarte, in "Ossadas"

domingo, 11 de dezembro de 2011

Chuva - Francisco José Lahmeyer Bugalho - Descanso de minh'alma



Chuva Chuva, caindo tão mansa, 
Na paisagem do momento, 
Trazes mais esta lembrança 
De profundo isolamento. 


Chuva, caindo em silêncio 
Na tarde, sem claridade... 
A meu sonhar d'hoje, vence-o 
Uma infinita saudade. 


Chuva, caindo tão mansa, 
Em branda serenidade. 
Hoje minh'alma descansa. 
— Que perfeita intimidade!... 


Francisco Bugalho, in "Paisagem"