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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Virá a morte e terá os teus olhos - Cesare Pavese


Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.

Cesare Pavese (tradução de Jorge de Sena)

domingo, 3 de junho de 2012

Deixa-me espreitar-te - Para Isabela

Isabelas

Deixa-me pousar os olhos. Só por um bocado, só para te ficar a ver. Só para absorver os teus traços mais uma vez, como se eu não os soubesse de cor. Como se fossem meus, embora de uma certa forma obsessivo os sinta pertencerem-me. Deixa-me ficar aqui sem dizer nada, sem me denunciar com palavras. Nunca saberia sequer dizer as mais corretas, nunca sei porque se deixam corroer pelas minhas incongruências. É, deixa-me ficar aqui a espreitar-te, pelo cantinho, a fingir que nem sequer estou a prestar atenção. A fingir que não me importo, que não sei, que não quero, que não preciso. Deixa-me estar. Até me sentir bem outra vez.

domingo, 27 de março de 2011

mas pressentimos no corpo uma espécie de feitiço -Nuno Judice

Eu, sabendo que te amo,
E como as coisas do amor são difíceis,
Preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez uma hipótese
de entendimento.É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice