Não consegues mudar ninguém. Nunca. É da natureza das pessoas serem o que são, e nada poderás fazer em relação a isso. Nem o amor, nem a perseverança, nem todas as cartas que escreveres com a melhor das tuas impressões digitais cravadas nelas. Nem as melhores intenções e definições que encontrares nas coisas mais simples ou complexas para expressares os teus segredos mais escondidos. Nada do que ouvires será intrínseco. É tudo tão efêmero e indistinto quanto um monte de pétalas caídas no meio do cimento vivo que os teus pés um dia já pisaram. As flores nascem e morrem sem ninguém chorar por elas, por mais harmoniosas que nos pareçam num dado instante do tempo. As palavras são conjuntos de sons e sentidos orquestrados com maior ou menor perícia. O bater do coração é supérfluo e as mãos cheias uma sensibilidade mais aguda. Nada do que tens agora te foi dado pelo destino ou forças maiores que a física, tudo é um conjunto de acasos semi-escondidos nas estruturas das coisas. E tu resistes, esperando que o acaso te atinja de uma forma benéfica. Esperando que ele te deixe sorrir em alguns momentos. Não queiras ser uma tábua de salvação para ninguém, pois ninguém o será por ti. E quando o souberes, perceberás que te despiram de toda a tua racionalidade, e que te deixaram só na curva de uma rua sem destino nem ordem, onde tudo em volta são espectros repetidos de imagens de Deus ou o Diabo. E já não saberás distinguir o reflexo que te caracteriza a alma que te resta no corpo. Tanto faz. Às vezes penso que a formatação mental era uma coisa excelente para dias medonhos.
«Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras.» José Luis Peixoto
Mostrando postagens com marcador Misty. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Misty. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
UMA VOZ DE POEMA QUALQUER by Misty
Quero-te para além das coisas juntas. Quero-te para além das rosas e dos gestos. Quero-te para além das paredes que nos ardem. Em pensamento, pecamos sempre demasiadas vezes, em pensamento. Por isso quero-te para além dos astros das minhas veias nas tuas veias em veias gigantes que pulsam com o volume no máximo. E quero-te. Um pouco mais vertiginoso do que isso. No meio das insônias, dos versos, da embriaguez, do pudor e das cortinas. Quero-te para além das coisas juntas.
Ah, escreve-me, escreve-me e eu cedo, sucumbo aos intuitos viscerais mais ávidos e profanos. Escreve-me com as palavras mais sedentas e vermelhas, violentas, dóceis, fugitivas, antagônicas. Dá-me um significado ambíguo e usa-me em qualquer contexto verbal ou construção semântica. Entrelaça-me nos teus desígnios e consome-me milhares de vezes sobre o zênite incerto da decência.
Quero-te para além de tudo isso. Quero-te acima das folhas de poesia, dos cigarros, dos pianos, das viagens, do cinema. Quero-te assim estupidamente, descompassadamente. Até não suportar mais o querer-te tão desenfreadamente.
sábado, 14 de maio de 2011
Vigília - Misty
As estrelas desenham-se frágeis num teto opaco de reminiscências. Perscruto através das paredes as poucas vozes que nos restam. De ti, apenas um gesto, o teu melhor, como sempre. Saiba eu acolhê-lo também da forma de toda a sua plenitude, e guardá-lo preciosamente numa caixa junto ao coração.
As estrelas desenham-se sem suporte. Instalam-se no céu e nas esplanadas da rua escura, atrapalhadamente. Dei-lhes o teu nome, e uma página de diário em branco para elas habitarem sossegadas. Do outro lado da folha, uma estrofe vertida pelos teus lábios numa tarde de há demasiados dias. Em hipérbole, obviamente, como devem ser todas as cartas dos amantes.
Visto-me das cores das folhas de Outono, que não chegaram ainda. Amanhã de manhã já vou beijar as tuas mãos, e as estrelas ficarão à porta à nossa espera. Fá-las-emos esperar, como sempre? Desta vez talvez fique lá dentro mais um pouco, semi-escondida no meio dos teus braços e das faixas de música, até que a maior parte das pessoas tenham já partido para outro fuso horário. E as folhas de Outono virem andorinhas e o céu seja o de primavera vaidosa e febril.
Creio que alguém devia escrever alguma coisa acerca das estrelas a flutuar lá em cima. Eu já esqueci os nomes que lhes dei outrora, enquanto absorvia as palavras vermelhas do poema. Leio-o agora, na esperança de te ver nascer das suas linhas hiperbolicamente, por detrás do pêndulo da tua falta nestas mãos que não te agarram, como não me servem. Pego no telefone para tentar não ouvir o conta-gotas das ausências, e falo de ti às paredes do quarto. Baixinho, elas respondem-me com a tua voz, do outro lado: “Traz-me os teus caracóis ruivos. Devo-lhes algumas horas de contemplação.”
O copo ainda está vazio - Misty
O tempo quebra-nos os dedos. A bebida tornam-nos frágeis. Então partimos, partimos num horizonte sem eco, sem pegadas. As pessoas todas ficaram para trás, chegamos onde já não as conseguimos chamar. Já nem sabemos o nosso próprio nome, pois tudo se esvaziou sobre um labirinto de frases vazias. E, contudo, parece que nos caem nas mãos, as palavras, caem-nos nas mãos.
Bebe mais um gole. Deixa-te invadir por essa inconsciência que te leva todas as razões, até ficares só com a vertigem e os estilhaços que potencialmente te pertencem. E o desejo, as mágoas, o regresso. Se pudesses regressar a um tempo que já não existe, não saberias fazê-lo. Já não sabes ser o que eras quando não eras o que agora és. Já não sabes ser aquilo que não queres.
Tenta preservar a alucinação só por mais um par ou dois de minutos, até teres certeza. Depois podes sair, e oferecer a alguém todas essas palavras que te caíram nas mãos. Pronunciá-las como deve ser, como um verso mal construído que de tão honesto nos faz estremecer. E saberes fazê-lo, agora que te sabe bem fazê-lo. Na verdade, não saberias dizer tudo isto de outra forma que não esta. Mais uma vez, só o dizes pela metade.
Era tudo tão mais simples para ti se todas as noites fossem sexta-feira agarrada ao seu peito enquanto a música soava, ou sábado de manhã enquanto no teu cérebro tocavam notas idênticas a essas. E tu a tentares tocar as teclas de um piano imaginário, no meio dos lençóis e do perfume a incenso e a sofreguidão.
Tenho medo de um dia acordar e não ver o teu rosto.
Assinar:
Postagens (Atom)



