sábado, 3 de março de 2012

Yanni - Prelude > Essência de minha paz!


Lamento do Morro > Maria Bethânia


Vida ilusória - (Henry David Thoreau, in 'Walden')

Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as histórias das Mil e Uma Noites. 

Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e sábios, percebemos que só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas aparências, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias. 


(Henry David Thoreau, in 'Walden'

O sofrimento do Hipócrita > Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"

A hipócrita

Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. 0 odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. 0 hipócrita é um titã-anão.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Seja feita a vossa vontade - Larissa Carmel (obvious)


Sobre certas perguntas que não devem ser feitas.
É questão de segurança pública
te colocar na frente da televisão
ao fim de sua jornada de trabalho.
censura.jpg
Por que devemos nos adequar?
Seguimos a linha de produção da indústria cultural;
Guardarmos opiniões na gaveta do escritório;
Vestimos sorrisos e vomitamos elogios.

Quem dita todas as regras que devemos seguir?
Não somos donos de nossas vontades;
Obedecemos a leis, morais, bons costumes;
Sufocados pelo politicamente correto, aplaudimos hipocrisia.

Quem controla o que devemos consumir?
Não decidimos o que compramos;
Não escolhermos no que acreditar;
Adquirimos liberdade embutida e hermeticamente embalada.

Por que tantas obrigações?
Queremos agradar a todos;
Vendemos nossas vidas por aceitação;
Só somos alguém se estivermos devidamente empregados,
motorizados, vestidos, comprometidos, motivados e calados.

Por que tanta preocupação em nos enlatar?
Por que tanta força para diminuir o volume de nossa voz?
Pense bem, por si mesmo, ao menos uma vez:
De quem é o poder de mudar o mundo?

É nosso.

Como poucos conseguem evitar que isso aconteça?
Fazendo com que você acredite 
que o mundo é o que é e seu esforço é inútil.

Será mesmo?

Ou será que nossa voz é a mais eficaz das armas?
Já não é tempo de reaprendermos a usá-la?

Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/insolito/2012/01/seja-feita-a-vossa-vontade.html#ixzz1nzs64o3I

E é só isto > Misty - Porto -Viseu - Portugal


Não sei se deva escrever mais do que já sei que nós sabemos e já toda a gente sabe, como uma espécie de verdade universal. Não sei se deva dizer que tenho medo, que as imagens do passado me fazem comichão na nuca, e que os outros por vezes me irritam quando opinam demasiado, e eu sei que eles não têm razão, mas há alturas em que estamos mais cansados e toda a razão se dissipa para trás das paredes, e eu começo a perder o fio das conversas alheias, e não me apercebo que é tudo mais um equívoco. Eu sei, eu não devia ouvir o que não interessa, e faço um esforço por ignorar, mas às vezes as frases ficam a ecoar convulsivamente até se esconderem nos cantos do quarto, e só me apetece agir da forma mais palerma e grotesca, para que os outros tenham enfim razões para falar. É, eu podia ser assim, como os outros querem. Mas não sou.

Porque se calhar os outros não querem que eu te queira assim, como quem quer Pearl Jam e céu de primavera, a escrever textos que toda a gente sabe que são para ti, onde eu digo que há muito tempo atrás eu já não acreditava em muita coisa simples e já tinha deixado de procurar no meio das pessoas, mas afinal se calhar o amor existe mesmo e é maior do que as pessoas falam, e não são as palavras que o chamam em voz alta, é qualquer coisa para além disso, que eu não sei muito bem explicar, só sei que está a bater aqui dentro com muita força e eu já sei que nome lhe vou dar. O teu.

Zigeunerweisen op.20 By Pablo de Sarasate