terça-feira, 28 de agosto de 2012

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS, SENTIMENTO DO MUNDO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A noitedesceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda, sem esperança...Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.A noite é mortal, completa, sem reticências,a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascendere dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,adivinho-te que sobes,vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançamna escuridãocomo um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventesse enlaçam,os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdãosimples e macio...

Havemos de amanhecer.O mundo se tinge com as tintas da antemanhãe o sangue que escorre é doce, de tão necessáriopara colorir tuas pálidas faces, aurora.


“A noite dissolve os homens” é uma importante poesia de sentido sociológico e político, publicada em 1940, durante a fase inicial da Segunda Grande Guerra.Carlos Drummond de Andrade dedicou o poema ao pintor Cândido Portinari (1903 – 1962), que sempre lutou contra o totalitarismo do Estado Novo.O poeta através da criação de uma poesia engajada de alta qualidade lança-se contra as atrocidades do avanço nazi-fascista e apela pela solidariedade humana e social.O poema está constituído em torno de duas metáforas: a “noite” configurando o espaço da alienação das massas em relação à realidade histórica, social e política das ruas, espaço público, onde as contradições, tensões e conflitos de classe afloram em toda sua evidência, contrapondo-se com a metáfora “aurora”, simbolizando a grande esperança utópica ou comprometimento ideológico de paz.O poema inicia com uma exclamação, enfatizando o anseio e a emoção do eu lírico, e expressando-se em primeira pessoa do singular.Nesse primeiro momento, o poema é assinalado pela imagem sombria da noite, marcada pelo medo, desesperança e desespero, onde o eu lírico assume uma posição autocrítica e solitária, remetendo o leitor ao contexto histórico vigente (combate, campos, desfalecido, guerreiros, pátria, fardas, mundo fascista, sobreviventes, sangue).O poeta, assim evidencia a presença do caos provocado pela guerra, sem reticências, ou seja, sem escrúpulos, derradeira e extrema, sem solução. A noite termina com as pátrias, com o brilhantismo de uma farda, com o brilho da vida e com o amor entre os homens.

“A noite anoiteceu tudo... / O mundo não tem remédio... / Os suicidas tinham razão”.

O eu lírico emprega termos cognatos (noite anoitece), que funcionam como redundância, como ampliação e reiteração da ideia que se cria sobre a palavra noite. O pronome “tudo” apresenta o clímax dos efeitos da noite; depois disso, somente o suicídio.Entretanto, a partir da metáfora “aurora”:

“Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, / minha carne estremece na certeza de tua vinda. / O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, / os corpos hirtos adquirem uma fluidez, / uma inocência, um perdão simples e macio...”, este indivíduo, já cansado, encontra a expectativa por dias melhores, que chega a comover-se nessa certeza de que aqueles que sobreviverem se unirão pela paz, e seus corpos híspidos de comoverão no perdão e na candura.A aurora é a metáfora da esperança, opondo-se ao mundo fascista, frio e calculista, que avança na escuridão dessa noite como sendo um sinal determinante de dias melhores. A aurora é decisiva e propicia ao eu lírico vislumbrar uma perspectiva otimista de superação.

“Havemos de amanhecer. O mundo / se tinge com as tintas da antemanhã / e o sangue que escorre é doce, de tão necessário / para colorir tuas pálidas faces, aurora”.
Nesses versos, o autor se expressa na primeira pessoa do plural, sugerindo a polifonia, na certeza consciente de que há esperança da reconstrução de um mundo melhor. O homem deixa de ser solitário, como nos versos anteriores, para se tornar um ser pelo coletivo. É o eu poético manifestando as relações com o outro e brindando a paz.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Caravaggio, sua poética e seus seguidores - por Valquíria Rego em 13 de ago de 2012 às 04:28

Michelangelo Merisi da Caravaggio (Caravaggio, 29 de Setembro de 1571 – Porto Ercole, comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) foi um pintor italiano atuante em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610. É normalmente identificado como um artista barroco, estilo do qual foi o primeiro grande representante. Caravaggio era o nome da aldeia natal da sua família, do qual adotou-o como seu nome artístico.



A mostra de Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio, por ser originário da aldeia Caravaggio, nos mostra diversas obras a respeito do cotidiano italiano da época. Suas pinturas remetem a iconografia usualmente sacra, inserida em seus quadros em uma poética encantadora.

De personalidade irascível, Michelangelo ficou conhecido por seu estilo “tenebrista”, com pinturas que concentram focos de luz no rosto de seus personagens com fundos negros e demonstram a realidade que o pintor queria nos propor.
O artista nos coloca um forte apelo dramático em seus quadros, como por exemplo, o quadro de São Francisco em que o mesmo segura uma caveira e se depara com a morte, - sua intenção é chocar, e mostrar a vida como ela realmente é - com os medos, angústias e agonias que nos cercam, nada é barrado.
A técnica empregada pelo mestre barroco é a do “chiaroscuro” ou “claro – escuro”, em que há o contraste de ambos.
Os objetos, as roupas dos personagens nos mostram bastante esta cena que o pintor queria nos propor com os drapeados fortemente marcados e os acessórios devidamente expostos em seus quadros traduzindo uma semântica realista.
Uma obra que a meu ver é de se contemplar é a da Medusa – personagem mitológica, conhecida pelos seus cabelos de cobra, que ao olharmos para ela supostamente nos transformaríamos em pedra.
Tal retrato nos mostra bem a forte iluminação em seu rosto, em que a mesma possui uma face de pânico, susto, medo, as cobras se encontram de uma maneira em que parecem circular pela cabeça da Medusa como se fossem “devorá-la”, é emblemática no que diz respeito a sua poética.
Pelo seu talento, Caravaggio recebeu muitas encomendas no século XVII, mas devido ao seu forte temperamento sua trajetória teve outros caminhos.
Em 28 de maio de 1606 Michelangelo matou um homem Ranuccio Tomassoni e foi obrigado a fugir desesperadamente.
Anos posteriores, aproximadamente em 1610 Caravaggio retorna a Roma com a intenção de ficar por lá,porém,foi detido em Palo para inspeções.Neste mesmo ano o artista não suportou,por estar exausto e febril faleceu na cidade de Porto Ecole ,no dia 18 de julho de 1610 aos 38 anos de idade.
E a exposição nos mostra este majestoso legado do artista traduzido em suas obras.

Seus seguidores –

Muitos pintores, seguiram o modo de pintar de Caravaggio, com a iluminação forte no rosto dos seus personagens contemplando esta cena com a luz forte e direta.
Giovani Baglione,Tommaso Salini,Gentileschi ,Carlo Saraceni e Orazio Borgianni são alguns expoentes que aderiram ao estilo “caravaggista” de pintar.
Aliás,como diz a curadora “Rossella Vodret” ,os dois últimos citados acima,utilizaram uma nova linguagem – sobretudo o uso da luz – aos modelos formais e de composição ligados à tradição do final do século XVI.”
Tais caravaggescos foram muito importantes para a difusão do estilo de Caravaggio,nos deixando traços imortais de suas obras.


Leia mais: http://lounge.obviousmag.org/arterolandoproseando_e_musicando/2012/08/caravaggio-sua-poetica-e-seus-seguidores--.html#ixzz23kqUXbij