quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Obstáculos - Joanna de Angelis

"Aquele que cede ante ao obstáculo, que desiste diante da dificuldade já perdeu a batalha sem a ter enfrentado. Não raro, o obstáculo e a dificuldade são mais aparentes que reais, mais ameaçadores do que impeditivos. Só se pode avaliar após o enfrentamento. Ademais, cada vitória conseguida se torna aprimoramento da forma de vencer e cada derrota ensina a maneira como não se deve tentar a luta. Essa conquista é proporcionada mediante o esforço de prosseguir sem desfalecimento e insistir após cada pequeno ou grande insucesso. O objetivo deve ser conquistado, e, para tanto, a coragem do esforço contínuo é indispensável. Muitas vezes será necessário parar para refletir, recuar para renovar forças e avançar sempre. É uma salutar estratégia aquela que faculta perder agora o que é de pequena monta para ganhar resultados permanentes e de valor expressivo depois."

domingo, 9 de outubro de 2011

CRIATURA - Rodrigo Della Santina


Ergue tua cabeça, criatura,
Sê completa em tua imperfeição!
Descobre teus olhos, tira-lhes as pálpebras que os cobrem, e vê,
[quase que inteiramente, diluindo-se célere, como no
[movimento browniano, a vida miserável ante a ti.
Vê e ajoelha: a miserável és tu.

Ó, criatura, não balbucies,
Não tremas inutilmente os lábios;
Guarda o teu espanto, a tua dor, teu desespero;
Guarda o teu medo e tua vontade de chorar.

Não deixes roupas sujas sobre a cama.
Não deixes sobre a cama roupas sujas.
Limpa tua casa como se a vida fosse justa e tudo no mundo te fosse
[indiferente ou desimportante.

Calça os teus sapatos de trabalhar,
Veste a tua calça de trabalhar,
Põe tua camisa e teu chapéu de trabalhar
E sê como és, ó criatura.

Mas ergue tua cabeça,
Tua cabeça ergue,
Não para sentires orgulho,
Mas para te enojares de ti sabiamente
.

domingo, 2 de outubro de 2011

FUNGOS NAS FLORES - Misty e Eu.



Não era suposto ter chegado onde cheguei. Não era suposto ter-me desalinhado dos sinais de luz que delimitam as verdades racionais em mim até me ver assim neutra e fragmentada. Olha, vou contar um segredo que toda a gente vai ouvir. Ainda bem que me perdi no teu nome. Mas hoje eu não sei se sei que nome é esse. Não sei a chama do fantasma que me rouba as palavras de sensatez, subvertendo-as a poemas vagabundos de sedes infiltradas no meu sono. Só sei que nada sei pois não me ensinaste mais nada hoje. E eu tenho sede de aprender. Tenho sedes a mais dentro de mim.


Sinto sobre os meus ombros demasiadas condições, demasiados compassos de espera. Procuro significados maiores nas coisas banais do dia-a-dia, mas já não consigo ver para além de somas menores. Pedaços do que nunca foi, do que foi apenas um suspenso entre meias vidas, meios seres, meios nadas que significariam muito. Hipoteticamente, claro, significariam muito. Odeio tanto esses intermédios do que nunca é e nunca deixa de ser. Odeio a vida. Porque somos sempre apenas metade de nós próprios, metade do que queremos, e eu odeio isso, odeio, odeio-o com todas as minhas forças. Odeio ser metade de mim mesma por não me deixarem ser mais dos outros. A realidade nunca deixa. Por isso a realidade nunca é de confiança. A realidade nunca é verdadeiramente real. Não é, pois não?

Evito pensar na hipocrisia que me cerca para não tombar de vez no fundo do poço. Não me apetece escrever bonito hoje. Tudo não passa de uma fusão de inconfidências mal confidenciadas de pessoas falhadas que não se confiam. Tudo não passa de uma encenação depravada e ridícula, um espectáculo freak no meio de uma arena. Para o público se deleitar a ver. É a realidade. É uma subversão grosseira a condutas estereotipadas e auto-flagelantes. É uma ilusão. É uma merda. É um fungo viscoso e medonho que se cola à fragilidade das palavras supostamente autênticas que pairam no ar como flores da Primavera. E eu não tenho forças para destrinçar as verdades que importam. Sinceramente hoje nada de real me importa…

E o pior de tudo é eu saber que minto quando o digo. Porque eu preciso de ocultar os fungos com as flores de Primavera que pairam no ar, e ver o mundo crescer em mim na pista de aterragem que revejo à minha frente. Eu preciso disso, não entendes? Preciso de acreditar em poemas e nadas que significam tudo. Preciso de ouvir aquelas músicas da forma mais simples que é a perfeição de todas as coisas, e saber que as confidências podem ser a coisa mais bela do meu dia. E tudo estará bem, eu sei. Se ainda sobreviver com as palavras no meio do caos. Ou então tudo voltará atrás. Ao principio. À vulgar banalidade das coisas menores que é o grosseiro espectáculo da  sua vida.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Procuro-te

Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas
"

A Falácia das Convicções

O intelecto humano, quando assente numa convicção (ou por já bem aceite e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: “E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?” Essa é a base de praticamente toda a superstição, trate-se de astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha o que é bem mais freqüente —, negligenciam-nos e passam adiante. Esse mal insinua-se de maneira muito mais subtil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceite tudo impregna e reduz o que segue. Até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas. 

Francis Bacon, in "Novum Organum - Livro I (XLVI)"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O VALOR DOS CLÁSSICOS - Agostinho da Silva

Dando à palavra o seu mais amplo domínio não podemos encerrar o clássico na estreiteza das escolas e nos limites do tempo; antes o haveremos de tomar como uma raça de espírito, capaz de fazer surgir os seus representantes nos lugares mais diversos e nas mais distantes épocas; e, se quiséssemos seguir este rumo, ainda haveria a discutir se na realidade se trata de qualidades inatas, não modificáveis por uma acertada educação, ou de um grau determinado de cultura, de um valor que seria possível medir na escala ascendente do imperfeito ao perfeito; isto é, teríamos que lhe encontrar idêntica solução à que proporíamos para os problemas que levanta a existência de culturas inferiores; a luta vai desencadeada entre os partidários da circunvolução defeituosa ou da completa estrutura e os que se inclinam às virtudes da escola. Mas o que mais nos interessa por agora é acentuar que não é inútil restringirmos o conceito de clássico, ligá-lo com laço definido a um tempo pretérito; os autores clássicos seriam assim como as ilhas que emergem do grande mar do tempo; desfizeram-se as rochas mais friáveis, caíram nos fundos os milhões de vidas que sulcaram as águas, perderam-se as terras que os vulcões com ímpetos de fogo e os estrondos que abalavam o mundo tinham feito surgir à superfície; ficou somente o que soube resistir aos ventos e às ondas e lhes ofereceu alicerce seguro e rocha viva; o que foi lento e calado no nascer e tranquilo na defesa dos embates; o que pôde e soube também ir revestindo a construção primitiva com as sementes que os ares lhe traziam; o que teve a capacidade bastante para admitir as novas invenções e para abrigar todos os sonhos e projectos de uma vida contínua; numa breve palavra, o que se mostrou duradouro e fecundamente acolhedor. 

Agostinho da Silva, in 'Considerações'