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sábado, 18 de maio de 2013

Delírios - Tamiris Maróstica - Mallamargens




De palavras tantas, me basto. De olhares outros, julgamentos teus e repreensões deles, bastam as já existentes. Em discernimentos cá-lá-d’onde mais houver, chega, não há mais espaço para repetições, para hábitos cinestésicos de outrora e modelos emocionais vencidos. Chega! Bastam todos os rótulos apodrecidos. Sirva-me um café sem cafeína, sem açúcar, sem a temperatura quente e sem a coloração característica, isso sim me bastará.


O céu que hoje se constitui é de um azul-desconhecido, tão vivo e tão cheio de vida que é como se toda a vida em vivência estivesse com ele, longe, e aqui na terra já não houvesse mais nada que se pudesse poetizar em maior beleza que a composição deste céu. Confio meu olhar a ele, junto das minhas pequenas viagens cerebrais e também daquelas vazias de imagens racionais. Mas sou dele, queria ser dele, escorrer em nuvens translúcidas e borradas, sem nada, apenas seguindo a espiral que não demonstra fim nem finitudes.


Lá vem as gaivotas, todas tão esbeltas e de um perfil ereto e atento. Mas hoje não vai chover e sequer estamos na praia para vê-las correr em desespero prevendo manifestações aguais futuras. Estamos em um lugar cinzento, vazio e desabitado, que dispõe apenas de um teto azul distante. Mas lá se vai o sol e o pôr-dele, assim como as gaivotas em debandada.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Os girassóis de ontem - Tiago Fabris Rendelli


Não suporto mais essa saudade hasteada em todos os detalhes do meu dia, destrinchando-me com seu anzol afiado.

Quero me livrar das imagens desgastadas que tenho e esquecer dessas muitas mãos sempre ocupadas com fantasmas. Em delírio vou fecundando minhas brechas com esse novo eu que desejo. 

Não tenho terras infecundas, confesso, apenas largadas à traça.

Degusto meu veneno lentamente e caio na vala rasa da razão: é preciso matar a saudade para que uma outra saudade nasça. Primordial é se entregar ao fluxo do tempo, ter o coração seco - traço oco que me sustenta - imprimir ao final um ritmo sem furor, uma prece sem vontade e pastar da grama verde do descaso.

E matar o amor do fruto esperançoso em gerar nova vida. 
E perder de vez a vacina final para essa pandemia de abandono na qual existo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O menino - Fabris Rendelli

O menino sem querer viu o céu, desconcertando-se de grandeza. Viu que o tempo era um fragmento de nossa lendária eternidade e que não há diferença entre o primeiro e o último suspiro. As estrelas iluminavam-lhe a morte de forma tão precisa que, sem querer, percebeu-se festejando a vida intensamente. Embriagado de desejo, enfiou as mãos na areia para sorver a voz espalhada pelo pó e vindas de tantas bocas. O dia seguiria surgindo inevitavelmente, ascendendo e apagando gerações inteiras, infectando de luz nossas trevas cotidianas. 


O menino que olhava o céu, desconcertado de grandeza, amava em silêncio o instante sempre perdido.

Os girassóis de ontem - Fabris Rendelli


E cada vez mais longe, cada vez mais distante, perdida e consumida, sabe que dia menos dia estará sozinha e só terá seus vermes como companhia para suas longas noites nas quais chorara o abandono de tanta gente, incluindo a si mesma. Ela se queimará por febres sombrias nos umbrais da velhice, onde a lembrança mais terna se resumirá na fantasia do que poderia ter sido e não foi. E uma multidão de bichos explodirá de sua solidão para chegar até a última luz de sua vida, que teimosa haverá poupado por todo o tempo, inutilmente. Centenas de milhares de bigatos de todo asco, repulsa e fuga, farão de seu coração seco e morto sua última morada.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um hemisfério numa cabeleira - Charles Baudelaire




«Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que eu sinto! tudo o que eu ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teus cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam a água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acetinadas da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações.»

Charles Baudelaire. O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa. Tradução de António Pinheiro Guimarães. Relógio D’Água, Lisboa, 1991.,p.49/50

domingo, 27 de novembro de 2011

Os Homens sem Pé no seu Tempo - Miguel Torga, in "Diário (1942)


Das coisas tristes que o mundo tem, são os homens sem pé no seu tempo. Os desgraçados que aparecem assim, cedo de mais ou tarde de mais, lembram-me na vida terras de ninguém, onde não há paz possível. Imagine-se a dramática situação dum cavernícola transportado aos dias de hoje, ou vice-versa. A cada época corresponde um certo tipo humano. Um tipo humano intransponível, feito da unidade possível em tal ocasião, moldado psicologicamente, e fisiològicamente até, pelas forças que o rodeiam. A Idade Média tinha como valores Aristóteles e os doutores da Igreja. E qualquer espírito coevo, por mais alto que fosse, estava irremediavelmente emparedado entre a Grécia sem Platão e as colunas do Templo. De nada lhe valia sonhar outro espaço de movimento. Cada inquietação realizava-se ali. O que seria, pois, um Vinci do Renascimento, multímodo, aberto a todos os conhecimentos, a bracejar dentro de tão acanhados muros? 
Neste trágico século vinte, sem qualquer sério conteúdo ideológico, sem nenhuma espécie de grandeza fora do visceral e do somático, todo feito de recordes orgânicos e de conquistas dimensionais, que serenidade interior poderá ter alguém alicerçado em valores religiosos, estéticos, morais, ou outros? Nenhuma. Entre o abismo da sua impossibilidade natural de deixar de ser o que é, e a muralha que o separa inexoravelmente do plaino onde se move e se justifica a multidão circundante, o desgraçado é como aquelas algas desenraizadas que o mar atira impiedosamente à terra, e que a terra devolve impiedosamente ao mar. É claro que na maior parte das vezes a pobre alga protesta. Todos se devem lembrar de Romain Rolland a erguer a voz impotente contra a guerra de 14. Sabemos o que valeu o seu grito. Foi só o tempo de disparar o primeiro canhão. O protesto, como um gemido inútil, ficou à retaguarda, abafado pelo estrépito dos que passavam. É a eterna e triste lei das realidades. Tão eterna e tão triste, que até passando do individual para o colectivo ela é verdadeira. 
Veja-se o caso em relação a dois continentes, a Europa e a América, por exemplo. 
Teima a Europa, culta, velha, experiente, mas anacrônica, em que a vida dos povos é sobretudo história. Que, por isso, o facho da autêntica civilização é seu, e só na sua posse deve caminhar. Tudo verdades como punhos. Mas o certo é que o facho lhe está dia-a-dia a morrer nas mãos e a passar para as mãos selvagens dos seus colonos. Com a mesma luminosidade? Evidentemente que não, mas que importa ? A vida não se move por ações lógicas. Move-se por imponderáveis, e sobretudo pela força dos factores. O homem que o nosso século pede não é o que lê, o que se aprofunda a cavar em si. É um ser biológico perfeito, no sentido corpóreo e psíquico duma abelha. A natureza dos favos é variável, claro está, conforme as necessidades de cada hora. Há pouco tempo ainda era um simples e inofensivo automóvel; neste momento o casulo é um tanque ou um avião. Por isso, a que propósito seria qualquer céptico em matéria de parafusos um representante atual da nossa civilização? Ver uma Grécia escrava de Roma é tão natural como ver um Unamuno perdido na Espanha de 36.