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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Adulação na Amizade - Marcus Cícero

Pois que é próprio da verdadeira amizade dar e receber conselhos, dá-los com franqueza e sem azedume, recebê-los com paciência e sem repugnância, persuadamo-nos bem de que não ha defeito maior na amizade que a lisonja, a adulação, as baixas complacências. Com efeito, não se poderia dar bastantes nomes ao vício desses homens frívolos e enganadores, que falam sempre para agradar, e jamais para dizer a verdade. 
A dissimulação é funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em nós o sentimento da verdade) mas é, sobretudo, contrária à amizade. Destrói a sinceridade, sem a qual não subsiste mesmo o próprio nome da amizade. Se a força da amizade consiste em fazer de várias almas uma só, como seria assim, se em cada homem a alma não é a mesma, não é constante, mas variável, mutável, tomando mil formas? De facto, que há de mais mutável, de mais versátil que a alma daquele que se transforma não apenas segundo o sentimento e a vontade dum outro, mas a um pequeno sinal deste, a um mínimo gesto seu? «Ele diz não? Eu digo não; ele diz sim? eu digo sim: numa palavra, eu me impus a obrigação de tudo aplaudir», como disse Terêncio, sobre a máscara de Gnathon. Seria inconcebível leviandade ter relações com gente desta espécie.
Mas encontram-se muito Gnatons mais possantes pela linha, pela fortuna e pelo crédito; e tanto mais perigosos são estes lisonjeadores, pois a sua autoridade faz pesar as suas lisonjas mentirosas. Entretanto, com atenção, pode-se distinguir o verdadeiro amigo do lisonjeador, tão facilmente quanto se distinguem as coisas fantasiadas e artificiais das que são naturais e verdadeiras. Uma assembléia pública, composta de multidão ignorante, sabe reconhecer a diferença que existe entre o homem frívolo, adulador do povo, e o homem grave, constante, severo. 

Marcus Cícero, in 'Diálogo sobre a Amizade'

sexta-feira, 8 de abril de 2011

García Marquez e a maestria narrativa - por Rinaldo de Fernandes


García Marquez
García Márquez possui a simplicidade de certos gênios. Mais uma vez, com Memória de minhas putas tristes (Ed. Record, 2005 – tradução de Eric Nepomuceno), dá uma aula de romance, de relato bem composto, fluido. Conta uma boa história com um poder de envolvimento fora do habitual. Constrói um personagem intenso, com tanta vida que, ao final, ficamos com mais sede de viver. Um velho jornalista (mora numa fictícia cidade colombiana) que produz crônicas dominicais, para comemorar os seus noventa anos, decide passar uma noite “de amor louco” com uma adolescente virgem. Para a empreitada conta com a ajuda de uma antiga amiga – a cafetina Rosa Cabarcas, dona de um bordel (Cabarcas logo irá se impor como uma personagem importante, que reserva para os “bons clientes” de seu bordel “muitas tentações obscenas”, pois tem como filosofia de vida não crer na “pureza dos princípios”, o que a leva a sustentar, àqueles que vão resistindo a essas tentações – como é o caso, até decidir-se pela noite com a adolescente, do velho jornalista –, que “também a moral é uma questão de tempo”). Mas, de que trata o romance do Prêmio Nobel de 1982? Apenas a recordação de um velho cronista libidinoso, que desde cedo optou por conviver com prostitutas, por passar as noites em bordéis, tendo escapado de um casamento às vésperas de pisar no altar? A representação impiedosa da prostituição infanto-juvenil na América Latina? A hipocrisia de um regime (no romance, os tempos são de repressão, de muito rigor, do “Abominável Homem das Nove”, o censor pontual que adentra as redações dos jornais – os marechais travando “sua guerra editorial” – para impor as versões oficiais), a hipocrisia de um regime cujas lideranças pregam uma moral que, na verdade, não é a delas (basta lembrar que o bordel de Cabarcas é freqüentado pelo governador)? O romance aborda tudo isso e avança admiravelmente para outras questões. A situação do protagonista é profundamente ambígua – angustia e anima. Angustia porque se trata de alguém bastante vivido que, inseguro, instável, sentindo o “peso imenso do século”, busca no cotidiano os sinais da morte (exemplo disso é a visão que tem da mãe, já morta há tempos, quando ele vai subindo as escadas de sua casa: “Então tornei a ver uma vez mais Florina de Dios, minha mãe, na minha cama que havia sido sua até sua morte, e me deu a mesma bênção da última vez que a viu, duas horas antes de morrer”). A solidão o estremece (o velho reencontra certo dia Casilda Armenta, uma ex-prostituta que já lhe tinha servido, e esta lhe diz algo decisivo: “Não há pior desgraça que morrer sozinho”). A inexorabilidade do tempo o assalta: “...comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinqüenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última”). A inexorabilidade do tempo o assalta, mas não empanca o seu viver, não o impede de apostar na vida como fonte de desejo: “...quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idéia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais”. A paixão afinal o atinge aos noventa anos. E ele passa a gostar de sua adolescente adormecida. Adormecida? Eis o elemento fantástico da trama: o fato de a adolescente, desde o primeiro “encontro” com o velho jornalista, ficar na cama sempre dormindo (e aqui o intertexto com “A Bela Adormecida”, de Perrault, parece evidente). Funcionária de uma fábrica de camisas (prega botões), à noite, após o trabalho exaustivo, Delgadina vem ao quarto reservado no bordel de Rosa Cabarcas para permanecer com o velho até o raiar do dia (a sua sonolência de garota de “uns quatorze anos” remete à letargia própria de certos indivíduos na puberdade). Nas muitas noites em que dormem juntos ele jamais faz sexo com a garota – mas beija-lhe o corpo, admira-a com uma paixão antes nunca provada. E é assim que passa a amar desesperadamente um corpo adormecido, que só raramente lhe dá sinais de vida. O insólito da situação acentua ainda mais a paixão do personagem (e lembro aqui que suas crônicas passam a refletir seu estado de ânimo, seu amor pela menina, e a despertar muita simpatia dos leitores – o que não deixa de sugerir um vínculo importante entre a escrita e a experiência). Por outro lado, uma narrativa com profusão de monólogos interiores, notadamente quando estes se prolongam, torna-se não raro (mas nem sempre, a depender da economia interna da obra) enfadonha – e é tudo que García Márquez evita em Memória de minhas putas tristes. No romance, os flashbacks, comedidos, não retardam tanto o desenrolar do relato. Os monólogos interiores, idem, vêm na medida exata, não são exaustivos. Assim, o presente da narrativa se precipita dinâmico, fluente, prendendo a atenção do leitor. O desfecho do livro, com o protagonista humanizado, amando muito e, por isso mesmo, apostando na existência, é de uma delicadeza – e injeta-nos energia, expande-nos também para a vida.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Elizabeth Taylor e o fim de uma era - André Barcinski















Morreu Elizabeth Taylor. Pensei em postar ontem mesmo sobre Liz, mas, como a Ilustrada me pediu um texto, achei melhor esperar até hoje.
Muita gente escreveu obituários bacanas da atriz, falando de sua importância para o cinema.
Seus muitos casamentos e escândalos pessoais também foram dissecados.
Mas o aspecto da vida e carreira de Liz Taylor que acho mais interessante - mais até que seus filmes - é sua posição como ícone do culto à celebridade.
Elizabeth Taylor praticamente inventou a indústria da fofoca. Todo editor de tablóides e de programas sensacionalistas de TV deveria fazer um altar pra mulher.
Veja bem: quando ela despontou como atriz, logo após a Segunda Guerra, a indústria cultural simplesmente ignorava o público jovem.
Até o surgimento do rock’n’roll, de Elvis e James Dean, um adolescente não tinha ídolos próprios. Filhos curtiam os ídolos de seus pais.
A geração de adolescentes americanos do pós-guerra foi a primeira da história que não precisou trabalhar para ajudar a casa. Isso criou um mercado gigantesco para a diversão jovem.
Liz Taylor cresceu no meio disso.
Ela fez seu primeiro filme aos 9 anos. Sua mãe era uma vampira dominadora, que explorou ao máximo o talento da menina, que aprendeu a se defender muito cedo.
Liz logo sacou que “ser uma estrela” não se limitava apenas às telas de cinema. Era preciso criar uma figura pública tão interessante quanto os personagens de seus filmes.
Ela foi além: sua vida foi um melodrama ainda maior e mais sensacional do que os filmes que protagonizou.
Liz Taylor fez amizade com famosas colunistas de fofoca e criou amplo material para os tablóides sensacionalistas.
Quando seu terceiro marido, Michael Todd, 23 anos mais velho que ela, morreu num acidente de avião, Liz foi consolada por um amigo de Todd, o cantor Eddie Fisher. Não demorou pra ele cair de quatro por ela.
Fisher era marido da atriz Debbie Reynolds, com quem tinha dois filhos (incluindo Carrie, a “Princesa Leia” de “Guerra nas Estrelas”). Ele largou a família para se casar com Liz. O escândalo quase acabou com sua carreira. Liz tinha 26 anos.
Depois, ela abandonou Fisher para ficar com Richard Burton, que também era casado. Os tablóides acompanharam o desenrolar do romance durante as filmagens de “Cleópatra”. Foi um verdadeiro “reality show”, muito antes do Big Brother.
Ao longo dos anos, a opinião pública acompanhou a vida de Liz Taylor como se fosse uma novela mexicana: vários casamentos, internações, overdoses, mais internações, bebedeiras, escândalos, a obsessão por jóias, a amizade com Michael Jackson...
Quase ninguém falava da grande atriz Liz Taylor. Sua vida havia eclipsado sua obra.
Barbra Streisand disse tudo: “Liz Taylor morreu. É o fim de uma era”.
P.S.: Desculpem, mas não posso deixar passar: Muricy, o problema era você!