Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás: o amor falou através dele. Ouvirás no seu ritmo a voz que tantas vezes desejaste; reconhecerás nos seus versos o corpo que encheu a tua vida; tocarás em cada uma das suas palavras os dedos que te ensinaram a medir os dias pelas suas contas de ternura. E o tempo entrará por ti como esse rio que alagou os campos do inverno. Olharás à tua volta, vendo a desolação de uma paisagem inundada. Algures, porém, uma árvore antiga sobressai; e os seus ramos verdes dar-te-ão a esperança de uma nova primavera, em que voltes a ouvir a voz que o poema te trouxe com os seus dedos de música.
«Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras.» José Luis Peixoto
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quarta-feira, 30 de março de 2011
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