quarta-feira, 8 de junho de 2011

Novo estudo mostra como a Inquisição usou o terror para manter o controle social, by Marcos Guterman – O Estado de S.Paulo












A Inquisição foi o triunfo da organização burocrática para o estabelecimento de uma atmosfera de terror que tinha como objetivo manter a sociedade sob controle político e ideológico feroz, em quatro continentes. Estabeleceu a culpa como algo inescapável, e quem ousasse resistir a isso enlouquecia em sessões de tortura ou ardia nas fogueiras “purificadoras”. Sobretudo, estabeleceu que o real não existia mais, senão como elaboração das autoridades eclesiásticas. Na visão do historiador britânico Toby Green, autor de Inquisição – O Reino do Terror (Objetiva), que acaba de sair no Brasil, os inquisidores seriam, nesse sentido, a “primeira semente” dos regimes de extrema direita que assombrariam o século 20. “A instituição da Inquisição implicava uma ideia nova de Estado e poder político”, disse Green em entrevista ao Sabático.
O livro de Green mostra que a função da autoridade, nesse contexto, é a de determinar a racionalidade dessa ficção construída pelo terror. Nada pode contrariar o ditado pela autoridade, por motivos óbvios: a contestação fere a tão desejada lógica. A autoridade se legitima por “conhecer” o subterrâneo, as mensagens subjacentes, o sistema invisível – e, portanto, é a única capaz de legislar. O desejo da autoridade deve ser interpretado como a verdade.
O interrogatório da Inquisição fazia o interrogado admitir a culpa sobre algo que ele muitas vezes nem imaginava o que fosse. O contexto do processo era inteiramente mantido em segredo, para que ao réu não restasse alternativa senão admitir como fato não a realidade, mas o que a autoridade inquisitorial afirmava ser a realidade. Tudo era elaborado para que houvesse a confissão “espontânea” – e a responsabilidade pela tortura era do torturado, porque resistiu à confissão.
O terror da perspectiva do suplício era um dos pilares do sistema. O outro era a onipresença da Inquisição, graças ao estímulo à delação, justamente o fator que gerava energia para o trabalho dos inquisidores – o ônus da prova cabia sempre ao acusado, e o réu era obrigado a apresentar testemunhas de sua inocência, enquanto o delator podia manter-se anônimo. Denunciar supostos hereges não era um direito, mas uma obrigação religiosa, que constava em “editais da fé”. Era, portanto, um sistema que se autoalimentava e que criou toda uma mise-en-scène, os “autos de fé”, para impressionar a arraia-miúda e legitimar sua ação. Não restava ao réu nenhuma alternativa senão admitir sua “culpa”, e então o circuito se fechava, conferindo a lógica perfeita ao discurso inquisitorial.
O interesse de Green, diante dessas constatações, é mostrar o aspecto que ele chama de “psicológico” da perseguição inquisitorial. É esse o trunfo que o britânico diz ter em sua abordagem, porque, segundo ele, a historiografia tradicional sobre o tema se centra na instituição da Inquisição e na tortura, enquanto o lado emocional “fica relegado pelos historiadores aos romancistas”.
De fato, a historiografia da Inquisição, grosso modo, está preocupada com as relações de poder e com o modelo legal aplicado aos réus dos processos. A reconstrução da mentalidade da época induziu Green a sugerir que “a Inquisição havia construído uma sociedade cada vez mais neurótica”, por causa da “repressão de instintos”. Questionado sobre se essa visão freudiana – isto é, um modelo teórico com a enorme carga de modernidade racional do início do século 20, fruto do “desencantamento do mundo” – não seria anacrônica para esquadrinhar um momento da história em que a religião era o centro do poder, Green rebate em duas frentes. Primeiro, argumenta que os óculos de Freud são “recursos legítimos para enxergar não somente o que aconteceu, mas por que aconteceu”, na medida em que identifica a reação da mente à repressão; segundo, ele contesta que a religião fosse central na Inquisição.
“A Inquisição tinha mais a ver com o poder do Estado, secular, do que com as leis de religião, que muitas vezes não tinham muita relação com as próprias normas da Inquisição”, explicou Green na entrevista. Em sua visão, o poder da Inquisição crescia ou declinava segundo o poder de ação dos monarcas – quanto mais os reis precisavam de controle e de riqueza, mais a violência inquisitorial se expandia. Esse perfil ficou claro principalmente com a Inquisição espanhola, instalada em 1478 e que só foi desmontada em 1834.
Nesse longo período, criou-se um sistema de invenção de inimigos para mascarar o declínio acelerado dos impérios ibéricos – a historiadora Anita Novinsky, principal estudiosa da Inquisição no Brasil, considera o próprio estabelecimento dos tribunais eclesiásticos como o sintoma central dessa decadência, cuja culminância foi a limpeza étnica, fatal para o desenvolvimento intelectual e econômico português e espanhol. Na opinião de Green, que incorpora o modelo teórico de Novinsky, a Inquisição “revela as origens do racismo moderno, ao escolher o caminho da limpeza do sangue, que é uma temática de suma importância para compreender a história do Estado moderno”.
De fato, há historiadores consagrados, como Raul Hillberg, que sustentam existir uma relação ideológica entre os éditos católicos a respeito do tratamento dos judeus ao longo da Era Moderna e as diversas leis nazistas a propósito da “pureza do sangue ariano”. É difícil não se dobrar às evidências que mostram que, tanto em um caso como em outro, “pureza de sangue” queria dizer exatamente a mesma coisa: sangue sem traços judaicos. Também não é possível escapar da sugestão segundo a qual a ubiquidade do terror era o esteio da coesão social desejada no nazismo quanto na Inquisição. Os menores detalhes do cotidiano eram objeto de paranoia, porque poderiam ser interpretados como traição ao projeto de “aperfeiçoamento” social e religioso, a partir de leis propositalmente confusas e arbitrárias. Somente as “autoridades” eram capazes de fornecer a lógica necessária para dar diretrizes racionais em meio a esse caos. Aos demais, restava aceder e renunciar à capacidade de refletir sobre o mundo.
Mesmo correndo o risco do anacronismo, Green diz que vale a pena explorar essas semelhanças. Ele admite que Torquemada – o mais emblemático inquisidor ibérico – e Hitler não podem ser comparados, mas “um pode ser a semente do outro”. E o historiador não se contenta com os nazistas. Ele sugere que os ditadores Francisco Franco, na Espanha, e Antonio Salazar, em Portugal, refletiam, de certa maneira, as mesmas profundas divisões sociais que a Inquisição passou séculos tratando de controlar.
O domínio de Salazar e Franco, na visão de Green, respeita a mesma lógica dos inquisidores – era preciso alimentar um inimigo interno para justificar o arbítrio, em nome de uma visão distorcida do mundo. Green não escreve, mas está claro que é uma referência aos atropelos jurídicos da “guerra ao terror” empreendida pelos americanos, movidos por um governo que dividiu o mundo em “conosco” e “contra nós”. “É um processo que toda sociedade expansionista tem experimentado”, disse Green. “O que a Inquisição mostra, e também a “guerra ao terror”, é que a busca de inimigos externos sempre pode acabar numa caçada aos inimigos internos. Por essa razão é algo tão perigoso.”

terça-feira, 7 de junho de 2011

O NÃO-RISO EM DOM QUIXOTE - Cacos de ludíbrio do humor

O NÃO-RISO EM DOM QUIXOTE - Cacos de ludíbrio do humor

Dom Quixote - Rosana Rocha
Desejo, por sinal, que você seja triste, não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano”
(Victor Hugo)

Pouco há para se duvidar no fato de que um bom mergulho no humor abre portas de prazer. Divertir-se é apartar-se do inoportuno tédio oriundo da sisudez. Mas, como na inteireza de todo algo há metade de indubitável e metade de questionável, que venha o contraponto num trote de Roncinante. O riso é também no sempre um curioso exercício de disfarce. Um providencial pacto a favor do ócio íntimo. Firmar acordos com o que se acha superficialmente na graça é lenitivo que faz sucumbir essa indesejável e invasiva dor que é o discernimento. Muito se investiga, esmiúça e discute a respeito do que faz rir em uma obra de arte. O que é ludíbrio, entretanto, no mais das vezes voa rumo à distância no vento dos moinhos.
Há mecanismos de humor restritamente criados para fisgar o riso. Satirize-se o ponto fraco, deixe vir a pândega e cumprida está a tarefa. Há, contudo, sofisticados mecanismos de criação artística que são puro ludíbrio de humor. Nesse caso, o que verdadeiramente interessa como resultado para o criador-emissor-da-mensagem não é a fugacidade da resposta ao convite para o rir. O cintilante e engenhoso batente de comicidade que se destaca logo à entrada da obra construída tem apenas a função de desequilibrar o partícipe-receptor-da-mensagem. O intento é fazê-lo cair sem prevenções no concebido. E que nessa queda tudo se quebre, pois o que interessa mesmo como resultado final são os muitos cacos de não-riso que se espalharão pela percepção – consciente ou inconsciente – da “vítima” do desequilíbrio.
Nas artes plásticas, Miró nos despedaça em cacos de não-riso. O que inicialmente parece apenas um lúdico convite ao riso do olhar acaba por se traduzir numa abençoada noção da infinita possibilidade das formas. No teatro brasileiro, Nelson Rodrigues nos estilhaça em cacos de não-riso. A sofrível comicidade suburbana de seus personagens é mera e genial cilada emocional urdida para capturar as platéias de modo indefensável. Já no século XVII, entrementes, o clássico Don Quixote De La Macha, do espanhol Miguel de Cervantes, é primoroso testemunho de ludíbrio do humor.
É surpreendente a extensa camada de leitores que, mesmo tendo atravessado a obra atenta e afetuosamente, apenas a apresentam como um “romance divertidíssimo”. Dom Quixote – como o dizer português rebatizou – é desesperadamente muito mais não-riso do que riso. Sim, Cervantes quer a desatenção primeira provocada pelo “achar engraçado”. Não à toa, já no Prólogo do livro, trata de nos enredar a atenção de forma jocosa:
“Desocupado leitor, não preciso prestar aqui um juramento para que creias que, com toda a minha vontade, quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e discreto que se pudesse imaginar (...)”.
O ardil é simples força impulsionadora destinada ao desequilíbrio e a queda. São mãos nas costas do leitor que o lançam ao mais da narração. Desocupado de si mesmo, aquele que começara a ler cai no riso já tendo caído no abismo em que o autor espera proporcionar o esfacelamento do próprio riso.
Eis, desta feita, uma missão digna dos mais bravos cavaleiros do discernir: sentar-se à borda de cada página de Dom Quixote e catar os cacos de não-riso produzidos no entender. Inevitável será iniciar tal cruzada por outro caminho que não o da observação da construção imagética dos personagens. No princípio da leitura, a triste figura de Quixote parece querer nos impelir a um superficial e desatento riso de lástima.
“(...) que podia, portanto, o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir neste mundo, senão a história de um filho magro, seco e enrugado, caprichoso e cheio de pensamentos vários, e nunca imaginados de outra alguma pessoa?(...)”.
A acentuada magreza e todo o mais da decadência física do herói deixam logo claro o insucesso. E reza o crer comum que o insucesso não merece ser levado a sério.
Contentar-se com o riso dessa impressão é não se deixar ferir pelo caco do não-riso no qual cintila a compreensão de que a fragilidade é gene universal. Está no ser de qualquer ser, seja sua compleição qual for. Há magreza, secura e enrugamento na figura de toda a raça humana. A armadura com que Cervantes reveste o patético Quixote desnuda todo leitor em todo tempo e lugar.
A curiosa oposição que a fisionomia de Sancho Pança faz a do protagonista pressupõe logo de pronto um divertido jogo de antítese. O contraste para o mirrado só pode ser o avolumado. A imagem que contraria o alto só pode ser a do baixo. A constatação desses elementos induz ao sorriso ocre do sarcasmo. Há não-riso, porém, no perceber que o paralelismo estético é a mais evidente tradução da completa pluralidade da existência. Tudo só é tudo por ser constituído de muitos.
Aprofundar a queda com destino à psique dos personagens principais é ação ainda melhor que se manter sentado à borda do livro. Nada, então, impedirá o choque provocado pelo desabamento sobre os desvarios do personagem-título. Quão desconcertante é a loucura de Quixote! Nada, todavia, que não se resolva com facilidade. Um bom e infalível reconforto para abrandar esse desconcerto é rir piedosamente da pobre turvação mental do “malfadado” viajante.
Rir da loucura ajuda a enlouquecer a sanidade. Aquele que menospreza o que se supõe insano menos preza as camadas múltiplas de sua pretensa lucidez. O caco de não-riso encontrado nisso talvez seja um dos maiores legados que Cervantes deixou para as letras que vieram depois das suas. Prova tamanha na Literatura Brasileira é o intenso sussurro quixotesco que se ouve por entre as falas e condutas do machadiano Dr. Simão Bacamarte, “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”.
Ainda no que tange à exposição da instabilidade emocional do Cavaleiro da Triste Figura, há algo que não pode deixar de ser considerado. Cabe especialmente a Sancho Pança o grande papel de agente do ludíbrio do humor. É justamente quando o personagem combate com rudeza e objetividade os devaneios de seu senhor que o autor convence o leitor a aceitar, sorridente, a poesia da loucura.
Somente a genialidade de um grande criador consegue nos seduzir a experimentar o doer do discernimento através do sorrir. A escolha por manter a consciência nesse processo, contudo, é particular.
Que não se compreenda esse texto, porém, como uma cruzada contra a fina sagacidade de se reagir ao cômico. Rir do que nos é proposto a rir é decididamente prova de inteligência. Entretanto, rir quando nos é sugerido o não-riso é sinal de devotada e triste obediência ao pacto com o ócio íntimo. Rir o riso raso é dizer “não eu”. Contudo, ler o silêncio dos cacos de ludíbrio do humor em Dom Quixote significa admitir o auto-reconhecimento ofertado como precioso regalo por Cervantes.
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Carlos Correia Santos
Ensaio publicado na conceituada revista ASAS DA PALAVRA, número 20, editada pelo centro de Letras da Universidade da Amazônia (Unama). A publicação foi lançada em 2005, em comemoração aos 400 anos do livro DOM QUIXOTE.


The ‘Ride of the Valkyries’


Triumphal March from Aida by Giuseppe Verdi ; Metropolitan Opera House – Marcha triunfal da opera Aida