sábado, 1 de setembro de 2012

Viver em Paz - Emmanuel

Vivei em paz..."Paulo, (II CORÍNTIOS. 13:11.) 

Mantém-te em paz. É provável que os outros te guerreiem gratuitamente, hostilizando-te a maneira de viver; entretanto, podes avançar em teu roteiro, sem guerrear a ninguém. 
Para isso, contudo - para que a tranqüilidade te banhe o pensamento -, é necessário que a compaixão e a bondade te sigam todos os passos. Assume contigo mesmo o compromisso de evitar a exasperação. 
Junto da serenidade, poderás analisar cada acontecimento e cada pessoa no lugar e na posição que lhes dizem respeito. 
Repara, carinhosamente, os que te procuram no caminho... Todos os que surgem, aflitos ou desesperados, coléricos ou desabridos, trazem chagas ou ilusões. Prisioneiros da vaidade ou da ignorância, não souberam tolerar a luz da verdade e clamam irritadiços... Unge-te de piedade e penetra-lhes os recessos do ser, e identificarás em todos eles crianças espirituais que se sentem ultrajadas ou contundidas. 
Uns acusam, outros choram. Ajuda-os, enquanto podes. Pacificando-lhes a alma, harmonizarás, ainda mais, a tua vida. Aprendamos a compreender cada mente em seu problema. 
Recorda-te de que a Natureza, sempre divina em seus fundamentos, respeita a lei do equilíbrio e conserva-a sem cessar. 
Ainda mesmo quando os homens se mostram desvairados, nos conflitos abertos, a Terra é sempre firme e o Sol fulgura sempre. 
Viver de qualquer modo é de todos, mas viver em paz consigo mesmo é serviço de poucos.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS, SENTIMENTO DO MUNDO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


A noitedesceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda, sem esperança...Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.A noite é mortal, completa, sem reticências,a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascendere dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,adivinho-te que sobes,vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançamna escuridãocomo um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventesse enlaçam,os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdãosimples e macio...

Havemos de amanhecer.O mundo se tinge com as tintas da antemanhãe o sangue que escorre é doce, de tão necessáriopara colorir tuas pálidas faces, aurora.


“A noite dissolve os homens” é uma importante poesia de sentido sociológico e político, publicada em 1940, durante a fase inicial da Segunda Grande Guerra.Carlos Drummond de Andrade dedicou o poema ao pintor Cândido Portinari (1903 – 1962), que sempre lutou contra o totalitarismo do Estado Novo.O poeta através da criação de uma poesia engajada de alta qualidade lança-se contra as atrocidades do avanço nazi-fascista e apela pela solidariedade humana e social.O poema está constituído em torno de duas metáforas: a “noite” configurando o espaço da alienação das massas em relação à realidade histórica, social e política das ruas, espaço público, onde as contradições, tensões e conflitos de classe afloram em toda sua evidência, contrapondo-se com a metáfora “aurora”, simbolizando a grande esperança utópica ou comprometimento ideológico de paz.O poema inicia com uma exclamação, enfatizando o anseio e a emoção do eu lírico, e expressando-se em primeira pessoa do singular.Nesse primeiro momento, o poema é assinalado pela imagem sombria da noite, marcada pelo medo, desesperança e desespero, onde o eu lírico assume uma posição autocrítica e solitária, remetendo o leitor ao contexto histórico vigente (combate, campos, desfalecido, guerreiros, pátria, fardas, mundo fascista, sobreviventes, sangue).O poeta, assim evidencia a presença do caos provocado pela guerra, sem reticências, ou seja, sem escrúpulos, derradeira e extrema, sem solução. A noite termina com as pátrias, com o brilhantismo de uma farda, com o brilho da vida e com o amor entre os homens.

“A noite anoiteceu tudo... / O mundo não tem remédio... / Os suicidas tinham razão”.

O eu lírico emprega termos cognatos (noite anoitece), que funcionam como redundância, como ampliação e reiteração da ideia que se cria sobre a palavra noite. O pronome “tudo” apresenta o clímax dos efeitos da noite; depois disso, somente o suicídio.Entretanto, a partir da metáfora “aurora”:

“Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, / minha carne estremece na certeza de tua vinda. / O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, / os corpos hirtos adquirem uma fluidez, / uma inocência, um perdão simples e macio...”, este indivíduo, já cansado, encontra a expectativa por dias melhores, que chega a comover-se nessa certeza de que aqueles que sobreviverem se unirão pela paz, e seus corpos híspidos de comoverão no perdão e na candura.A aurora é a metáfora da esperança, opondo-se ao mundo fascista, frio e calculista, que avança na escuridão dessa noite como sendo um sinal determinante de dias melhores. A aurora é decisiva e propicia ao eu lírico vislumbrar uma perspectiva otimista de superação.

“Havemos de amanhecer. O mundo / se tinge com as tintas da antemanhã / e o sangue que escorre é doce, de tão necessário / para colorir tuas pálidas faces, aurora”.
Nesses versos, o autor se expressa na primeira pessoa do plural, sugerindo a polifonia, na certeza consciente de que há esperança da reconstrução de um mundo melhor. O homem deixa de ser solitário, como nos versos anteriores, para se tornar um ser pelo coletivo. É o eu poético manifestando as relações com o outro e brindando a paz.